11/03/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (30) - Crónica: "Falar para o Boneco"

FALAR PARA O BONECO

Há uma indesmentível sabedoria popular, a que nem sempre damos o devido relevo, e muitas vezes somos mesmo traídos pela aparência evidenciada por algumas de essas pessoas e temos a tendência mesquinha para as menosprezar.
Creio que terei aprendido uma lição de vida, que não mais esqueci, ao deparar-me com um alentejano que aparentava ter setenta anos (numa altura que eu devia andar pelos trinta). Foi numa noite de verão, num tosco café, um dos poucos abertos na cidade de Elvas, onde eu iria pernoitar. Sentado ao meu lado e talvez por sentir necessidade de conversar com um estranho, que até tinha ares de quem vinha da capital, meteu-se a disparar uma série de questões, algumas que pareciam profundas e filosóficas, apesar do seu ar humilde, e ia, pacientemente, aguardando a minha reação. Primeiramente, senti que ele estava a falar para o boneco, pois não estava a dar-lhe qualquer importância e reconheço que até olhava para ele com alguma altivez. Quando me decidi “ir a jogo”, mesmo tendo eu um curso superior, senti-me completamente vergado pela sua sabedoria.
Uma dessas pessoas que muito admiro, é o poeta António Aleixo, que tendo sido um pobre, “quase analfabeto”, com tragédias familiares, dificuldades e doenças, ficou conhecido como um dos mais importantes poetas populares portugueses – com quem me identifico ao nível da ironia e capacidade de crítica social –, bem patente nas suas quadras, e que ainda hoje fazem a delícia de quem as lê, mesmo tendo passado quase setenta anos sobre a sua morte. Talvez, durante algum tempo, ele tenha sentido que andava a escrever para o boneco, mas ficou uma boa parte do seu legado, que pela aceitação contraria essa ideia.

Mas essa sabedoria popular, não sendo considerado um conhecimento científico, acaba por ser transmitida de geração em geração e revela-se das mais variadas formas, desde as mezinhas para curar algumas doenças, sem recurso aos químicos da indústria farmacêutica, até aos ditados populares. Sobre estes, dou apenas alguns exemplos, para ficarmos apenas na verdade e na mentira: “O dinheiro cala a verdade”; “Ainda que enterrem a verdade, não sepultam a virtude”; “Mais perde em amizades quem mais teima nas verdades”; “Mais vale o calar do mudo do que o falar do mentiroso”; “O mentir exige memória”; “Nada é mais fácil que mentir e mais difícil do que mentir bem”; “Quem a dois senhores quer servir, a um há de mentir”; “A verdade é amarga, a mentira é doce”…  

Fui acumulando alguma dessa sabedoria ao longo de mais de sessenta anos, e ao aperceber-me que tivemos uma longa ditadura no país que durou mais de quatro décadas, admitindo que quanto mais ignorantes são as pessoas mais são facilmente manipuladas, talvez explique porque dediquei mais de metade da minha vida à educação e formação de adultos. Este conceito parecia verdade, até ler num jornal semanal, que colocam gratuitamente na caixa de correio, esta frase do conhecido mágico Mário Daniel: “Quanto mais culta e inteligente for a pessoa, maior a facilidade com que cai no truque”, falando mesmo nos truques para seduzir. Talvez alguns membros destacados da classe política tenham conseguido obter algumas lições, para aumentar o número de votos, já que tinham, como dado adquirido, os votos dos “ignorantes”.

À presente época, ainda se veem alguns cidadãos, provavelmente bem-intencionados, a tentar deixar uma marca e a promover mudanças na sociedade, num apelo à inteligência e à verdade. No entanto, um conhecido bastonário andou a falar para o boneco, tendo como cruzada a crítica aos juízes; agora foi conhecido o caso de um procurador indiciado de ilícitos criminais em que, ao que tudo indica, “o dinheiro calou a verdade”. Há o caso do professor universitário, candidato a presidente da República, que teve a corrupção como tema central da campanha; afinal, “a verdade foi amarga” e obteve 2,16 % dos votos nas últimas eleições, parecendo evidente que andou a falar para o boneco e que as pessoas preferem uma “mentira doce”. Também um conhecido comentador desportivo parece andar a falar para o boneco; enveredou pela defesa da causa “verdade desportiva”, estabeleceu pontes numa abordagem da promiscuidade entre desporto (com predominância do futebol) e política e escreveu, já em 2016, o livro “Mentiras Futebol Clube”, vindo a “perder em amizades por teimar nas verdades”. Estranhamente, até no último filme a que assisti no cinema – “The Boy – Segue as Regras” – vi a personagem Greta, no papel de baby-sitter, que passou quase todo o tempo a falar para o boneco Brahms, de porcelana e no tamanho real de um menino de oito anos, que afinal “não era um mero boneco”… deixando uma pessoa desconcertada, quanto ao que é verdade e mentira.

No dia de tomada de posse do 20.º presidente da República, assisti a uma entrevista de circunstância na TV, feita por um repórter na rua e para “encher chouriços", frente ao Palácio de Belém. À pergunta “Então que espera deste novo presidente?” ouviu-se uma popular responder: “Então… espero que seja melhor que os outros atrasados!”. Será que a esta pessoa fugiu-lhe a boca para a verdade? Fez-me logo lembrar da presidência aberta de Mário Soares em Trás-os-Montes, mais precisamente em Rio de Onor; um repórter perguntou a um ancião o que achava da presença do presidente da República na aldeia e teve como resposta: “Oh… nunca outro tinha cá botado as patas!”. Porque aqui não se precisa de truques, ao ver gente genuína, com tanta simplicidade, bem posso acreditar que este homem estaria mesmo convicto dessa verdade.

       © Jorge Nuno (2016)




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