10/02/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (29) - No Quarto com Ela

NO QUARTO COM ELA

Já há três dias que andava ansioso pelo momento. Não é por acaso que eu tinha estes dois livros na mesa de cabeceira do quarto: “Cérebro – Manual do Utilizador”, obra da Dr.ª Sandra Aamodt (da Universidade de Yale) e do Dr. Sam Wang (da Universidade de Princeton); “Descontrair a Mente”, escrito pelo Prof. Dr. Dietrich Langen, falecido em 1980 e, ao que consta, dedicou “mais de quarenta anos de experiência na área da divulgação médica do treino autógeno”. Com estes, procurava, além de exercitar a mente, obter aprendizagem de técnicas de relaxamento, com alguma sistematização, de modo a fazer melhor uso do cérebro.  

Em boa verdade, há cinco anos que recuso ser um sexagenário, por me considerar um sexalescente – e até há quem diga “sexylescente” –, já que está nos meus planos manter-me ativo, sem preocupações quanto ao passar dos anos. Também é certo que podia sentir-me um pouco mais relaxado quando pegava nos referidos livros, mas não contribuíam para me tranquilizar completamente. Experienciava isso ao ver as notícias na TV, particularmente aquelas que considerava um estímulo à minha capacidade de compreensão e/ou um atentado à minha inteligência. Tinha acabado de ver aquela que se reportava ao vírus Zika, alegando que em Portugal estará “montada vigilância apertada nas fronteiras para detetar a presença de insetos que represente ameaça”. Ora, sendo estes tão minúsculos e… aos milhões, fiquei curioso de saber como será “essa vigilância apertada nas fronteiras” para os insetos, quando nem se consegue controlar a meia dúzia de cavalos à solta [para os animais não há fronteiras] que fazem aumentar a sinistralidade rodoviária. Depois, as notícias da Comissão Europeia (CE) sobre Portugal, a fazer-me lembrar Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, que disse: – O cliente pode ter o carro que quiser, desde que seja preto; assim, também a CE – que é pouco ou nada democrática, pois os seus membros não se submetem a sufrágio eleitoral – toma decisões, que obriga a obedecer (sob a forma de acordo), mesmo quando não se concorda com as decisões concretas, e argumenta com a “regras europeias” dizendo, sub-repticiamente, que Portugal pode escolher e adotar as políticas que quiser, desde que seja a política definida pela União Europeia.   

Nestas minhas deambulações, para minha satisfação, o tal momento especial chegou. Aguardava-a, pacientemente, no quarto. Reconhecia que me sentia em desvantagem, antes e depois da sua entrada. Logo após ter-me perguntado se estava bem-disposto, apressei-me (não sei se desajeitadamente, pelo modo brusco com que o fiz) a perguntar-lhe onde é que ela queria: – Na cama ou no cadeirão?
Reparei no seu ar jovial, e a sua movimentação indiciava grande à-vontade, como quem está habituada a estas lides. A sua resposta deixava transparecer que estava confiante e, por ser dada de modo delicado, fez com que me sentisse menos constrangido: – Pode ser onde quiser; na cama ou no cadeirão. É onde se sentir mais confortável. Escolha, pois por mim tanto faz.   
Ainda não sei bem por quê, impulsivamente, escolhi o cadeirão. Há dias assim…
Então sente-se e descontraia – disse-me, enquanto exibia um sorriso tranquilo e baixava-se mesmo à minha frente, bem próxima de mim.

Vi então aumentar, exponencialmente, os meus níveis de ansiedade, fazendo agarrar-me com firmeza aos braços do cadeirão, como se estivesse no consultório dentário e já ouvisse o silvar da broca a aproximar-se da minha boca, sem estar anestesiado! Nestas circunstâncias, tudo indiciava que os ensinamentos do Prof. Dietrich Langen não iriam ser absorvidos por mim. De pouco me valeu que este tivesse feito tanto esforço a apregoar como “Descontrair a Mente” e, em vez disso, houve lugar a um turbilhão de ideias, por instantes sem controlo, quando seria suposto sentir alguma tranquilidade, por antecipação. Genuína e estranhamente, admiti que, em vez daquela jovem com atributos, nem me importaria que estivesse ali uma outra mulher, mesmo que quarenta anos mais velha, de corpo disforme, com peito muito grande e descaído, e até aceitaria que ela fosse uma rezingona mal-humorada, verrugosa, de cabelo desgrenhado e aspeto descuidado. Mas, não… tinha bem próximo uma jovem, dinâmica e confiante, e acreditava que esta iria fazer-me soltar. Com esta idade nunca, mas mesmo nunca, tinha passado por situação semelhante.
Perante o meu ar receoso, bem evidente, volta a dizer: – Incline-se para trás, abra mais um bocadinho as pernas e descontraia.
Ela foi de tal modo eficaz que em menos de três minutos, já com os preliminares incluídos, zás!... Estranhamente, acabou por ser muito rápido, entre um misto de uma ligeira dor e de um imenso alívio. Finalmente… a jovem enfermeira retirou-me a algália!

© Jorge Nuno (2016)

      

09/02/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (28) - No Meu Galho em Noite Fria de Inverno

As nossas escolhas geram o inferno na Terra ou o Céu na Terra.

Santa Hildegarda de Bingen (1098 – 1179)
Monja e abadessa beneditina alemã, mística, teóloga, pregadora, escritora de livros de medicina natural, poetisa e compositora, proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Bento XVI, em 2012.


NO MEU GALHO, EM NOITE FRIA DE INVERNO

A tarde fria de inverno transforma-se rapidamente num sombrio lusco-fusco, ao ver desaparecer de vez os últimos raios de sol por detrás da serra de Nogueira. Caminho a pé, em direção a casa, olho ao longe e ainda consigo descortinar os picos mais altos da Sanábria, tingidos de branco sujo, de uma neve que teima em ficar por muitos meses. Ajeito o cachecol em volta o pescoço, como se olhar para a neve me fizesse sentir ainda mais o desconforto do frio, ou como se a minha voz interior me avisasse para não facilitar, para evitar problemas futuros, sabendo que eu encaro as vacinas, incluindo a da gripe, como uma treta, por me julgar um super-homem, acima de qualquer doença. Olho instintivamente para o relógio. Mas são ainda dezassete horas e já é de noite!

Enquanto caminho, sinto no ar o agradável cheiro a lenha queimada nas lareiras e, de repente, lembro-me de questionar por onde andará agora o imenso bando de estorninhos que me habituei a ver em todos os fins de tarde de verão, vindos dos campos para pernoitar nas velhas e bem cheirosas tílias da praça Cavaleiro de Ferreira, mesmo no centro da cidade, entre alegre e aguerrido chilrear. Coisa fina, pernoitar na cidade! Para novamente, pela alvorada, partirem para os campos, ricos em alimentos. Dizem que os estorninhos-malhados estão por cá no inverno e os estorninhos-pretos permanecem todo o ano, mas por que será que só me dou conta deles, qualquer que seja a espécie, ao crepúsculo, durante o verão? Não é meu hábito andar distraído, mas algo se passou. Mas por que me lembro agora desta espécie de comportamento gregário? Será pelo fascínio dos seus movimentos coletivos de rara beleza, com mudanças rápidas de direção, como que a prepararem-se para a grande viagem sazonal, à procura de outro habitat, num jogo de sobrevivência e procura de bem-estar coletivo?
Entre deambulações mentais, vejo-me mecanicamente a marcar o memorizado código para abrir a porta do prédio. Pouco depois… a jantar, e ainda são só dezoito horas! E eu que tantas vezes, intimamente e sem o referir, criticava os mais idosos por jantarem tão cedo!

Tal como um dos estorninhos, hoje apetece-me ir cedo para o meu galho e adormecer logo para começar cedo o meu novo dia, com energias renovadas para os próximos atos criativos, sejam eles quais forem. Estranho, pois sei que não precisaria de partir cedo para os campos em demanda de alimento, nem obrigatoriamente ficar na cidade, ir para o emprego, picar o ponto e dar, profissionalmente, o meu contributo ativo. Mas não me sinto estorninho, porque não tenho a companhia contagiante dos outros estorninhos. No entanto, hoje, no meu galho, rejeito o computador, a internet e as redes sociais (com canários, papagaios, cegonhas, abutres, melros, gaviões, cisnes, pelicanos, patos, beija-flores, avestruzes, caturras, gaivotas, corujas, pavões… mas muito poucos estorninhos para formar um bando estonteante). Rejeito também o televisor, a rádio, o leitor de CD’s, o MP 3, o instrumento musical com dois teclados, pedaleira de baixos, caixa de ritmos e orchestral conductor, ou um ou mesmo dois livros.
Baixo as persianas térmicas até meio, para poder deixar entrar os primeiros raios de sol de inverno, que surgem do lado de Babe, e servirão de natural despertador, já que os galos não abundam nas redondezas e os vidros duplos abafam qualquer ruído exterior. Deito-me, apago a luz e reflito sobre as aprendizagens do dia e, por fim, poder agradecer ao Universo por essas aprendizagens.

Vêm-me à mente, em catadupa e sem nada forçar, uma série de coisas. Curiosamente, as perguntas parecem melhores que as respostas. Por que razão no escuro vejo melhor? Sim, comigo parece resultar, no escuro muitas vezes faz-se luz! No escuro dou mais importância à luz. E como se fez uma noite negra, mesmo sem estarmos em lua nova, e como negro se transformou o meu país! Queixas? Não, não é meu timbre. Prefiro acender a candeia, do que me queixar da escuridão. Mas sinto que tenho que ir mais fundo. Serão o medo e a culpa os dois principais inimigos do homem? O que acontece quando o homem se libertar de sentimentos de culpa, que lhe foram inculcados durante séculos e, decididamente, perder os medos? As sociedades, os governos e modelos económicos vigentes continuarão a agir como até aqui? Por que será que a nossa maior fraqueza é a dependência, do que quer que seja ou de quem seja, permitindo, passivamente, que sejam cometidos abusos? Por que razão não agimos de uma forma mais interdependente, numa relação recíproca, de tratamento igualitário, não para criar lucro a alguns mas para gerar verdadeira riqueza, que reverterá em benefício de todos? Será que eu não serei mais do que uma forma de vida, mas uma experiência mais ampla de vida, como energia em movimento? E que essa energia, num plano vibracional mais elevado, trará mais autoconsciência? E que essa energia afetará, inevitavelmente e por simpatia, outra energia que esteja próxima? E que essa vibração em ascendente conduz à mudança? Estaremos mesmo a aproximarmo-nos rapidamente da Idade de Ouro da Iluminação? Então por que razão fica a perceção que tudo nos parece tão negro neste planeta em expiação, que aparenta ficar pior a cada dia que passa? Não estará cada vez mais gente a conseguir ver no escuro? Não estaremos já numa fase de mudança de consciência coletiva, pela evolução natural de tanto olhar e não aceitar indefinidamente a escuridão? Até que ponto a cocriação, que advém da paixão, será a força motriz para alterar o statu quo? Quanto custa ir da apatia à empatia? Precisarei de evocar o meu lado sagrado, o que me conduz à minha verdade mais íntima, para dar contributos nos atos criativos comuns e estimular a mudança? A vontade ou necessidade de que a verdade interior esteja de acordo com a vivência exterior não levará as pessoas ao questionamento e a querer corrigir assimetrias? É aqui que entra o conceito de que a vida é um processo de andar em círculo, mas pensando nisso como uma espiral ascendente?

Estranhamente, um aperto de bexiga leva-me a esfregar os olhos e a “despertar” lentamente, como quem acaba de acordar de um sonho não menos estranho. Viro-me para a direita e fixo o olhar no relógio luminoso. Faltam três minutos para a meia-noite. Levanto-me, vou à casa de banho e logo me sinto um pouco mais aliviado. Espreito pela janela, sem esperar ver nada de especial a essa hora da noite, numa cidade que fica quase deserta a partir do fecho do comércio, mas no ar sinto o persistente cheiro agradável a lenha queimada e o frio cortante, com reflexos no vidrado do asfalto, visível sob o número reduzido de candeeiros acesos da rotunda e, contíguo, através do arraial luminoso que provém do túnel.
Dirijo-me novamente para a cama e reparo que é precisamente meia-noite. Começa um novo dia. Hesito, por momentos, entre o adormecimento ou ficar desperto. Mesmo desperto, posso decidir se quero prolongar a noite negra ou se quero antecipar a alvorada e ver raiar, entre as barras das persianas, os raios de sol que indiciam um novo dia, uma nova oportunidade. E como tudo seria mágico e simples, se um enorme bando de estorninhos saísse dos seus galhos e se juntasse, com as suas mirabolantes danças aéreas, para dar corpo à visão coletiva do ansiado novo dia.   


© Jorge Nuno (2013)