03/01/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (10) - Magia e Reis

MAGIA E REIS

Em 2009, fiz uma viagem memorável a Israel e, entre muitos locais bíblicos, estive em território ocupado pela Autoridade Palestiniana. Para um turista, de visita a este território, pode chocar ver os muros, as barreiras militares instaladas do lado israelita, com soldados fortemente armados e, particularmente, quando apercebe-se de que está a entrar no autocarro um palestiniano, de metralhadora e dedo no gatilho. Como homem de fé, confiante ou anestesiado pela emoção da viagem – que decorria, de forma extremamente agradável, sem quaisquer incidentes –, não valorizei aquele facto; afinal, tratava-se de um inspeção de rotina. Pouco depois, encontrava-me em Belém, a mítica cidade natal de Jesus.

Aí, absorto nos meus pensamentos, retrocedi cerca de dois mil anos. Imaginei as dificuldades vividas naquela época e confrontei-as com os conflitos que se mantêm, atualmente, numa Terra Santa permanentemente debaixo de tensão.

Imaginei os Reis Magos a chegar alguns dias depois do nascimento, em camelos, guiados por uma estrela. Imaginei que se esse acontecimento fosse na Europa, em plena Idade Média, esses três reis – só pelo facto de serem apelidados de “magos” –, provavelmente, nunca teriam chegado ao destino, pois seriam queimados vivos na fogueira, em nome de um deus qualquer. E o relato de magos já vem de períodos muito anteriores a este! Não deixa de ser interessante que a Bíblia[1] refira Moisés e os magos – a vara de Aarão – como se segue: “O senhor disse a Moisés e a Aarão: quando o faraó vos disser: Fazei um prodígio, dirás a Aarão: Pega na tua vara e lança-a diante do faraó e transformar-se-á numa serpente”. (…) Aarão lançou a sua vara à frente do rei e dos seus servidores, e ela transformou-se numa serpente. O faraó mandou, porém, chamar os sábios e os magos: e os magos do Egito fizeram o mesmo com os seus encantamentos”. E foi preciso mais magia… surgindo as conhecidas pragas – águas convertidas em sangue, rãs, mosquitos, moscas venenosas, peste nos animais, úlceras, granizo, gafanhotos, trevas – ou ainda, como se pode ler[2]: “O Senhor disse a Moisés: E tu, ergue a tua vara, estende a tua mão sobre o mar[3], divide-o para que os filhos de Israel possam atravessá-lo a pé enxuto. (…) Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor fustigou o mar com um impetuoso vento do oriente, que soprou durante toda a noite. Secou o mar, e as águas dividiram-se”, conseguindo, finalmente, a libertação do povo hebreu e encaminhá-lo para a Terra prometida.

Imaginei que se fosse na época atual, algum regulador impediria os Reis Magos de fazer chegar aquelas ofertas ao Menino Jesus, devido ao ouro, incenso e mirra, eventualmente, ultrapassarem o valor legal das ofertas permitidas por lei. Também a Bíblia[4] refere a grandeza no reinado de Salomão, filho do rei David, em que a tentação pelo ouro era enorme: “O peso de ouro que anualmente era levado a Salomão era de seiscentos e seis talentos[5], sem contar com o tributo que recebia grandes e pequenos vendedores dos reis da Arábia e de todos os governadores do país (…) Toda a gente desejava ver a face de Salomão para ouvir a sabedoria que o Senhor lhe tinha dado. E todos lhe traziam presentes (…) ouro, vestes, aromas, cavalos (…)”. Apesar da evidência dos factos, há um provérbio[6] atribuído a Salomão, que diz: “Os tesouros mal adquiridos de nada servem, mas a justiça livra da morte”.

É tradição cristã encerrar as festividades de Natal e de Ano Novo, em cada dia 6 de janeiro, comemorando a visita e oferendas dos três Reis Magos ao Menino Jesus. Há uma passagem no Novo Testamento[7] que refere os Magos do Oriente: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo de Rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?’ – perguntavam. ‘Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo’. Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: ‘Em Belém, da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta’. (…) Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes havia aparecido. E enviando-os a Belém, disse-lhes: ‘Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do Menino, e, depois de O encontrardes, vinde comunicar-mo, para que eu também vá adorá-Lo’. (…) E a estrela que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela sentiram grande alegria, e entrando na casa viram o Menino com Maria, Sua mãe. Prostraram-se, adoraram-No e, abrindo os cofres, oferece-Lhe presentes: ouro [por Belchior (ou Melchior), que terá partido da Europa, sendo esta uma oferta habitual aos “deuses” e à realeza], incenso [por Gaspar, que terá partido da Ásia e o levou para proteger o Messias] e mirra [por Baltazar, de África, e era uma oferta comum aos profetas]. Avisados em sonho a não voltarem para junto de Herodes, [os Reis magos] regressaram à sua terra por outro caminho”.

Nos países hispânicos, é tradição a entrega de ofertas às crianças no dia 6 de janeiro, com idêntico simbolismo das oferendas dos Reis Magos, para alegria das crianças. Há magia em dar e receber, desinteressadamente. Há magia na troca, a qual faz circular [boa] energia. Não passa, forçosa e unicamente, pelo ouro, jóias e outros bens similares, mas por riquezas imateriais. É evidente a magia que paira no ar durante a época natalícia e no início de um novo ano. Não deixa de ser impressionante como as pessoas dizem naturalmente: “Tudo de bom para ti; que a vida te sorria; tem um excelente ano…”. Escreveu, Deepak Chopra: “ A simples ideia de dar, de abençoar, de oferecer uma simples oração, tem o poder de afetar a vida dos outros”. Bom ano para todos.

© Jorge Nuno (2018)      


[1] In Êx. 7
[2] In Êx. 14
[3] Mar Vermelho
[4] In 1 Rs. 10
[5] 1 talento corresponde da 34,2 kg.
[6] Provérbios, coleção salomónica: 10-22.
[7] Evangelho Segundo S. Mateus – Mt 2.

15/12/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (9) - Deixemos Entrar a Magia

DEIXEMOS ENTRAR A MAGIA

Pululam casos sensacionalistas, felizmente, com tendência para a descoberta da verdade. No futebol, em vez do jogo jogado, rola a “bola” dos e-mails, em turbilhão, com inúmeros gigabytes, a revelar uma sucessão de escândalos e a fazer movimentar a Unidade Nacional de Combate à Corrupção, da Polícia Judiciária, a exigir trabalho extra. Dois comandantes de bombeiros a serem constituídos arguidos, no caso dos fatídicos incêndios de Pedrógão Grande, indiciados de crimes de homicídio por negligência e ofensas corporais; em vez de colaboração institucional, fica a ideia de terem sido (re)abertas hostilidades, com o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses a desafiar publicamente o presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil, para que divulgue casos “menos transparentes” que conheça, após o segundo ter anunciado que “irá ser reforçado o número de ações inspetivas (…) e promovidas acções de auditoria interna [aos corpos de bombeiros e associações humanitárias de bombeiros]”. Fruto de trabalho de investigação jornalística, fica-se a saber que, na Raríssimas - Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras, que nos últimos anos tem médias orçamentais superiores a quatro milhões de euros, dos quais cerca de 1,2 milhões financiados pela Segurança Social e pelo Ministério da Saúde, haverá fortes indícios de esbanjamento de recursos, com uso indevido de dinheiro da instituição para fins pessoais, elevadas compensações financeiras para a própria presidente, assim como “estranhas” ligações contratuais de assessores, a cobrar quantias excessivas, que levou o ex-secretário de estado da Saúde a pedir demissão, e a que fosse pedido a demissão da respetiva presidente daquela instituição; o ministro do Trabalho, da Solidariedade e Segurança Social, fragilizado com este caso, pediu uma inspeção a esta Associação, com caráter urgente. Com outro trabalho de investigação jornalística, fica-se a saber da existência de uma rede de adoções ilegais praticadas pela IURD – Igreja Universal do Reino de Deus, a indiciar os crimes de subtração de menores, sequestro e tráfico de crianças; o Ministério Público abriu uma investigação a este caso. Volta à baila o caso da [falsa] seita “Verdade Celestial”, em que ficou provado, no tribunal, os crimes de abuso sexual de menores, com o líder e principal arguido a ser condenado a 23 anos de prisão efetiva, juntamente com mais cinco arguidos presentados com penas menores.

Há uma máxima num templo[1] no Japão que diz: “Não veja o mal – não oiça o mal – não fale mal”. Quem conhece minimamente a filosofia oriental, saberá que não é um apelo para que se assobie para o lado. Nesta época, em que predominam ampliados sentimentos de entusiasmo, excitação, entrega, generosidade… sob o poder regulador da vida – o amor – há como que uma anestesia natalícia. Focando-nos nas coisas positivas, seguramente, sentir-nos-emos melhor.

Vejamos, então, com outros olhos, pois, apesar de tudo, os ventos parecem de feição:
– A Santa Casa irá doar 27% das receitas dos jogos/apostas, na semana que antecede o Natal, para integrar um fundo destinado a apoiar as vítimas de incêndios (verba estimada entre 4 a 6 milhões de euros);
– O primeiro-ministro português foi integrado no “top ten” dos políticos europeus mais influentes. No “One Planet Summit” – cimeira sobre o clima, em Paris – garantiu a aposta nas energias renováveis; o ministro do Ambiente afirmou que Portugal assumirá o papel de “front runner” [linha da frente] na luta contra as alterações climáticas; outro português, António Guterres, no cargo de secretário-geral da ONU, concluiu a cimeira com um discurso apelando a que haja mais ambição, mais liderança e mais parcerias na luta contra o aquecimento global, pedindo aos líderes “que mostrem coragem a combater interesses instalados”;
 – Uma imagem positiva externa levou a que o ministro das Finanças, deste pequeno país, tenha sido eleito para liderar o Eurogrupo;
– Depois de já ser considerado o “Melhor Destino Turístico da Europa”, Portugal foi agora considerado o “Melhor Destino Turístico do Mundo”, nos World Travel Awards (WTA) – prémio nunca conseguido por qualquer outro país europeu. Neste evento, Portugal arrecadou mais os seguintes prémios: Lisboa obteve o prémio “Melhor Destino para City Break” (estadias de curta duração); Parques de Sintra[2], pela quinta vez consecutiva, conseguiu o prémio “Melhor Empresa do Mundo em Conservação”; o Turismo de Portugal foi considerado o “Melhor Organismo Oficial de Turismo do Mundo”, assim como o seu portal oficial obteve o prémio de “Melhor Site Oficial de Turismo”; já a Madeira foi considerada o “Melhor Destino Insular do Mundo”;
– Entusiasmado com as citadas distinções atribuídas a Portugal, o ministro das Finanças referiu que seria bom, para os juros da dívida pública, o aumento do “rating” pela agência de notação financeira Fitch, a exemplo do que aconteceu com a Standard & Poor’s, que retirou a notação de crédito de Portugal da categoria “lixo”. Anunciou, também, a entrega de mais mil milhões de euros ao FMI, até ao final do ano, totalizando a entrega de 10 mil milhões de euros em 2017, que faz diminuir a dívida pública e aumentar a confiança em Portugal.

Escreveu a autora australiana, Rhonda Byrne[3]: “Se aconteceu algo de negativo na sua vida, pode alterá-lo. Nunca é tarde demais, porque pode sempre mudar a forma como se sente. (…) Todos os dias tem uma oportunidade para uma nova vida. Todos os dias está num ponto de viragem da sua vida. E em qualquer dia pode mudar o futuro – pela forma como se sente”. Conclui, na contracapa do mesmo livro: “Está na hora. Deixe que a magia entre na sua vida!”. E a magia entrou mesmo na vida de Celso Fonseca! Numa entrevista feita pela agência Lusa, divulgada pelo Jornal de Notícias, pode ler-se: “Português passa de sem-abrigo a recordista mundial de ultraciclismo”. É relatado que teve alguns acidentes e que reagiu mal às evasivas das seguradoras em Portugal. Assim, resolveu ir para o Reino Unido e trabalhou em Cardiff, País de Gales, em que uma das profissões exercidas foi a de segurança. Disse, na primeira pessoa: “Fui abusado pelo meu pai quando era criança (…). Tornei-me um sem-abrigo porque a minha cabeça ‘explodiu’. Tentei suicidar-me, mas agora estou a ser seguido por um psiquiatra. (…) Eu quero fazer a diferença. Pela primeira vez percebo que não fiz nada de errado”. Quando vivia nas ruas, diz ter-se entusiasmado com um vídeo das 24 horas de Le Mans (automobilismo) e pensou fazer o mesmo, mas em bicicleta. Viria a ser apoiado por uma cadeia de lojas de bicicleta e treinou arduamente. Acompanhado por oficiais da Associação de Ultramaratonas de Ciclismo do Reino Unido, apesar das dificuldades de alimentação e da baixíssima temperatura no dia da prova, a chegar aos quatro graus negativos, conseguiu percorrer 708 km, quebrando recordes mundiais nos 300 km (em 9:05:41 horas), 300 milhas (482,8 km, em 15:31:59 horas) e 500 km (em 16:08:33 horas). Acreditemos que a sua vida teve um forte impulso positivo.   

Saibamos mudar o futuro, individual e coletivo, e deixemos entrar a magia!

Um Santo Natal e uma vida melhor para tod@s. 

© Jorge Nuno (2017)
       







[1] Templo Xintoísta Toshogu Shrine (Séc. XVII), que faz parte do Património Mundial da Humanidade.
[2] Empresa com capitais públicos, sem recorrer ao Orçamento de Estado.
[3] In “O Poder”, ed. Lua de Papel, Alfragide (2010).

29/11/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (8) - Polémicas aos Molhos

POLÉMICAS AOS MOLHOS

“Os que enfrentam a realidade exercem o livre-arbítrio tomando decisões conscientemente e aceitando a responsabilidade por elas, reservam a opinião e acreditam na sua capacidade de criar vidas mais felizes (…)”, é uma frase escrita por Karen Kelly[i]. Alocando a frase à decisão política consciente e realista, e à reserva de opinião, atrevo-me a firmar que hoje é visível algum deslumbramento coletivo, com cheirinho de alívio e umas pitadas de felicidade aqui e acolá. Não vejo nenhum mal nisso, bem pelo contrário. Mas o optimismo de lentes cor-de-rosa, conduz-nos, quase sempre, ao choque com a realidade e cria algum desconforto, pelo sentimento de incredulidade ou não aceitação dessa mesma realidade.

Assim se dividem opiniões, fazendo estalar polémicas e mais polémicas.

– Depois de travadas “batalhas” pela igualdade de género e a tendência segue o rumo de minimizar a orientação de sexo, sente-se que foram alcançadas assinaláveis conquistas. Quando a Igreja Católica entende, finalmente, que os homossexuais devem ser acolhidos por ela própria “com respeito e delicadeza”, vem agora relembrar e querer operacionalizar o que o Papa Bento XVI já tinha dito: “A homossexualidade não é conciliável com a vocação sacerdotal”. Assim, foram traçadas diretrizes para a formação de sacerdotes, recomendando a que os candidatos sejam sujeitos a testes psicológicos para evitar o surgimento de “tendências homossexuais”, pedófilos ou com doenças mentais, impedindo-os de entrar em seminários e ordens religiosas. Lá dentro, em confissão sigilosa, pode confessar a sua homossexualidade que o confessor será obrigado a remeter-se ao silêncio;

– Parecia um dado adquirido que a candidatura da cidade do Porto, para acolher a Agência Europeia do Medicamento, era uma das melhores posicionadas, entre as cinco favoritas (de um conjunto de 16 cidades candidatas). O Porto ficou fora da corrida, logo após a primeira votação. Em cima do acontecimento, o governo português veio anunciar a mudança do Infarmed de Lisboa para o Porto, criando alguma perplexidade, por ficar a ideia de tratar-se de uma “compensação”. O primeiro-ministro apressou-se a dizer que a decisão já estava tomada, tendo em vista aproximar a agência nacional da agência europeia [na perspetiva de um Porto vencedor]; no entanto teve a virtude de reconhecer, numa entrevista à Antena 1, que “a comunicação podia ter sido de outra forma”. Sabe-se que 97% desses trabalhadores já rejeitou mudar-se para a “capital do norte” e até já se apontam custos muito elevados com a relocalização, formação especializada, compensações… e a presidente daquela instituição a dizer que se trata apenas de “intenções”;

 – A Lei n.º 24/2016 veio regular o acesso à gestação de substituição (até há pouco encarada como “barriga de aluguer”). Os casais, em Portugal, a partir de 01/08/2017 já podem recorrer a este processo e fazer vir criança ao mundo, mediante determinados pressupostos. Mas… o primeiro caso aprovado é de uma avó que vai gerar o seu neto! Para a legislação poder ser aprovada e o pedido dos interessados ser aceite, teve, necessariamente, de haver um parecer favorável do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, além de ser ouvida a Ordem dos Médicos (esta, sem parecer vinculativo). Neste primeiro caso, à mãe do futuro bebé foi-lhe retirado o seu útero, por razões clínicas. Será utilizado o esperma do pai e um óvulo retirado da mãe. Em trabalho de laboratório, o embrião será gerado “in vitro” e, posteriormente, incubado no útero da avó. Está em causa a ética, os riscos de saúde para a parturiente (em idade pouco usual, sendo sempre uma gravidez de risco, mesmo que bem seguida medicamente), a legalidade jurídica (acautelada pela legislação vigente, mas que pode ter outros desfechos se, após o nascimento, p. e., for suscitada a questão relativa à atribuição da maternidade, a requerer intervenção de um juiz);

– Com surpresa, assistimos ao fretar de um total de cerca de 100 camiões-cisterna diários, para transportar água para a barragem de Fagilde, situada no concelho de Mangualde. Sabe-se que nessa barragem havia apenas um nível de 10% da sua capacidade, devido à seca extrema. Sabe-se que existe aí uma ETA, a qual abastece de água potável tanto o próprio concelho, como os concelhos de Viseu, Nelas e Penalva do Castelo. Sabe-se que foi pedida a intervenção dos bombeiros, que disponibilizaram cerca de 45 camiões para essa tarefa. Foi noticiado que também foram fretados camiões-cisterna a empresas de transporte privado, com um custo de € 700 diários, por viatura. Sabe-se que o governo disponibilizou € 250.000 para esta megaoperação, aceitando disponibilizar mais € 250.000, depois de negociações com as Águas de Portugal. Com estupefação, assistimos à recusa dos bombeiros em transportar água, alegando que estavam a custear a operação do seu bolso e não tinham recursos para tal;

– No dia em que o governo de Portugal completou dois anos, realizou um conselho de ministros em Aveiro, seguido de uma sessão de perguntas e esclarecimento. As perguntas terão sido feitas por um painel de cinquenta cidadãos. O ministro do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques, disse na véspera do evento: ”(…) quanto às perguntas que vão ser feitas, à amostra das pessoas que lá estarão ou à natureza dos temas a abordar pelas pessoas, há de ser da responsabilidade daquela Universidade”. O jornal “Sol” noticiou que iria ser pago € 36.750 a um grupo de cidadãos que participa no estudo. Ao que se sabe, foi encomendado um estudo à Universidade de Aveiro e utilizado um painel representativo da amostra, para questionar o governo. Alguns desses elementos, entrevistados por vários canais televisivos, responderam entre “perguntem à empresa” [contratante], outros disseram “€ 200”, outros “€ 150 + refeição + transportes”, outros referiram “apenas as ajudas de deslocação”. O professor universitário, coordenador do estudo, afirmou que o executivo teve “zero influência” nas perguntas formuladas e acrescentou: “É prática corrente internacional e nacional haver algum tipo de compensação para deslocações e tempo para quem participa nestes estudos, eu próprio, quando era estudante no Reino Unido fiz algum dinheiro participando em estudos”.

Há uma frase atribuída a Phineas Taylor Barnum[ii], que diz: “Sem promoção, acontece uma coisa terrível: nada!”. Qualquer decisor, estratega ou governante sabe disso. Mas terrível também é o descuido na forma como se comunica, para quem quer passar uma mensagem e/ou obter bons resultados; quando assim é, a polémica é inevitável; e a sensação de desconforto também.

© Jorge Nuno (2017)      



[i] Autora de «O Segredo de “O Segredo”», Livros d’Hoje, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2007.
[ii] Norte-americano (1810-1891), um homem do espetáculo e autor de “Art of Money Getting”. 

17/11/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (7) - A Morte, o Insólito e a Prostituição

A MORTE, O INSÓLITO E A PROSTITUIÇÃO

Um acontecimento recente em Portugal teve um forte impacto nas redes sociais – difundido a uma velocidade vertiginosa, como se se tratasse de um vírus –, e prometeu criar uma enorme agitação, atingindo, de forma acutilante, elementos do governo, tanto do atual como do anterior.

Esse acontecimento, que tem tanto de insólito, como de leviandade, como revela falta de caráter ou até onde vai a prostituição… levou-me, em surdina, a tentar descobrir o que me levou – a mim – há uns anos atrás, a entrar: em antiquíssimos sepulcros, com inúmeras tumbas e um sem fim de lápides de pedra, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém (Israel); no antigo cemitério judeu, em Praga (República Checa); nos mausoléus da mesquita e do cemitério muçulmano de Konya (Turquia). Será que na altura, tinha ou sentia algum prazer mórbido nessas visitas? Faz sentido que estes locais sejam transformados em locais turísticos, com cobrança de entradas?

Sobre a visita àquele estranho local, situado na encosta a leste da cidade velha de Jerusalém, e da “loucura” dos que agora pagam milhões por um pequeno espaço para serem ali enterrados, retenho uma excelente memória. É um dos cemitérios mais antigos do mundo, com necrópoles e tumbas escavadas em rocha, estimado em cerca de 3.000 anos, contendo mais de 150.000 sepulturas numa vasta área. É espantoso como o Livro de Zacarias, considerado “profeta”, leva a que os judeus queiram ali ser enterrados, no “palco dos acontecimentos finais” e, assim, poderem “ser os primeiros a serem ressuscitados”. O próprio Zacarias terá pedido para ser ali enterrado, admitindo-se que possam lá estar também muitos “notáveis” mencionados na Bíblia. Admirei a persistência do trabalho de investigação, incluindo escavações permanentes, por me parecer tratar-se de um trabalho sem fim, um puzzle aparentemente impossível de completar, por haver sempre peças escondidas. Mas quando se fala de figuras bíblicas, a palavra “impossível” fica desprovida de sentido. Com o clima ameno naquela altura do ano, a vista deslumbrante sobre as milenares muralhas de Jerusalém, os ponteiros do relógio a darem a impressão de que o tempo terá parado… a contemplação era uma realidade e sentia uma enorme sensação de bem-estar geral, tal como já acontecera no Monte das Bem-Aventuranças e no Monte Tabor, na Galileia.

Uma semana completa para visitar a cidade de Praga parecia muito. Puro engano. Muito bem alojado, mesmo “a dois passos” da praça da Cidade Velha, foi um deslumbramento total. Com um programa exclusivamente ao gosto pessoal, visitei tudo o que me parecia interessante. Quase sem saber como nem por quê, depois de visitar o Bairro Judeu, dei por mim a pagar para visitar o antigo cemitério judaico, fundado no século XV, e que “abriga” muitos judeus notáveis. Tem igualmente, numa ala daquele espaço, o Museu Judaico de Praga, que foi ocupado pelo regime nazi e que quis fazer dele o “museu de uma raça extinta”. Terei pensado: “Já que estou aqui… vem mesmo a propósito!”. Na verdade, gastei tempo à procura de um apelido específico, que não encontrei. Esperava encontrar uma qualquer ligação… alguém com aquele apelido que tivesse sido vítima do nazismo e ali fosse enterrado… mas não. Uma senhora magra, de idade avançada, que podia ser sobrevivente do holocausto, prontificou-se a ajudar-me (em diferido e à distância) mas fiquei-me por ali. Ainda hoje sorrio ao lembrar-me que, junto de uma campa, do nada… sem explicação, caiu-me uma lente dos óculos, sem que eu tivesse contribuído para tal!

Konya, cidade no centro da Turquia, desenvolveu-se em torno de um “profeta” – Rumi (1207-1273), poeta e teólogo sufi persa. O corpo deste, encontra-se na importante mesquita, concluída pelo sultão Allaeddin, que tem mausoléus contendo importantes figuras da dinastia Seljuk. O filho de Rumi e seguidores fundaram a ordem sufi, conhecida como a “ordem dos dervixes girantes”. O túmulo de Rumi é ponto “obrigatório” de visita. Tanto aqui, como para os restantes túmulos do cemitério muçulmano, contíguo à mesquita, o guia turístico fez questão de deixar vários avisos, relacionados com a cultura local, tendo em vista a especificidade daqueles espaços onde se honra os mortos.

Naturalmente, respeitei os locais, as tradições e cultura própria naquelas zonas visitadas, e quase que dispensava as recomendações, pois tenho em conta o bom senso. Depois de cada visita, senti que estava mais rico, em conhecimento, e com maior predisposição para aceitar as diferenças culturais.

O Panteão Nacional, em Lisboa, assente sobre a Igreja de Santa Engrácia, terá durado cerca de 300 a construir; daí a expressão popular “É como as obras de Santa Engrácia!”, para referir algo que parece não mais acabar. Além do interesse arquitetónico, encontram-se no Panteão os túmulos de ilustres figuras portuguesas, a quem Luís Vaz de Camões faz referência, in Canto I, de “Os Lusíadas”: “(…) E aqueles, que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando (…)”, para realçar os heróis imortais. No último dia do importante acontecimento anual, de grande importância para o país, o espaço foi alugado para um jantar com cerca de 400 participantes no Web Summit. Depois de se constatar como alastrou a notícia viral, com um primeiro ministro-ministro a prometer alterar a legislação sobre o aluguer de espaços públicos específicos, quando apenas competia à tutela dizer “não”, caso fosse esse o entendimento, e não foi. O dinheiro terá falado mais alto! Realce para o pedido de desculpas de Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, em que dizia pretender “honrar a história de Portugal”. Relembrou que o jantar foi organizado de acordo com a legislação existente e “com todo o respeito”. Disse mesmo no Twitter: “Sou irlandês. Culturalmente, temos uma abordagem muito diferente à morte. Celebramo-la. Isso não faz com que esta seja a abordagem mais correta em Portugal. Adoro este país como a minha segunda casa e nunca tentaria ofender os grandes heróis do passado de Portugal”.

Jorge Nuno (2017)         


01/11/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (6) - Um País de Vanguarda (Parte III)

UM PAÍS DE VANGUARDA

(Terceira Parte)

Porque a periodicidade das crónicas é quinzenal, relembra-se o seguinte: a Parte I, com o mesmo título, aborda a grandiosidade de Portugal na sua época áurea – século XVI – que espantou pela dimensão dos feitos conseguidos, assim como pela ousadia e estoicidade, que evidenciava o caráter dos portugueses; a Parte II, refere como as características de Portugal e dos portugueses podem ser fonte de inspiração para outros povos, tendo sido apontados vários sucessos alcançados no presente, num curto espaço de tempo, que coloca o país na vanguarda, em vários domínios; nesta Parte III, pretende-se abrir a janela do futuro, consciente de que ele é incerto, pois depende de diversas variáveis, mas em que o rumo poderá ser corrigido e apontar-nos algo necessariamente diferente, desde que construído coletivamente, de forma consciente.

Para se perceber melhor o alcance, retrocedamos à tal época áurea, com base no que escreveu Roger Crowley[1]: “D. Manuel I tivera a sorte de nomear dois comandantes – [Francisco de] Almeida e [Afonso de] Albuquerque – incorruptíveis e leais, o último destes sendo também um dos maiores conquistadores e um construtor visionário do império. Nunca tendo sob o seu comando mais do que alguns milhares de homens, recursos improvisados, navios roídos pelos bichos e uma ambição avassaladora, Albuquerque ofereceu-lhe um império no oceano Índico, assente numa matriz de bases militares fortificadas. Ao fazê-lo, os portugueses surpreenderam o mundo. Ninguém na Europa previra que este país pequeno [também por ser pobre] e marginal irromperia de tal forma na Ásia, uniria os hemisférios e construiria o primeiro império global. (…) A expansão portuguesa, cada vez mais nas mãos de comerciantes privados, estendeu-se aos mares para além de Malaca: as ilhas Molucas, China e Japão. (…) Os portugueses com os seus canhões de bronze (…) uniram o mundo. Foram os mensageiros da globalização e da idade científica dos descobrimentos. Os seus exploradores, missionários, mercadores e soldados espalharam-se pelo mundo. Estiveram em Nagasáqui e Macau, nas terras altas da Etiópia e nas montanhas do Butão. Atravessaram os planaltos tibetanos e subiram o Amazonas. Ao viajar, criaram mapas, aprenderam línguas (…)”. E citou Luís Vaz de Camões[2]: “E se mais mundo houvera, lá chegara”. Tudo, em grande parte, na presunção de D. Manuel I que era um rei messiânico – aspirante a rei dos reis – destinado a grandes feitos, tendo sempre presente a cruzada contra os muçulmanos.

Hubert Reeves[3] refere: “No mundo existe a mudança. O quente torna-se morno. Os corpos caem. O fogo arde e as achas consomem-se. Estas transformações não se fazem arbitrariamente. São ligadas entre si por uma espécie de troca monetária. A moeda, neste caso, é a energia, que permite manter ao físico a contabilidade dos fenómenos que estuda. Num canhão, uma carga de pólvora explode. A energia química (de origem electromagnética) é transformada parcialmente em energia térmica (o canhão aquece). A soma das energias, cinética e térmica, é igual à energia química libertada”. Através do conhecimento, quando tomarmos consciência da importância da energia libertada/movimentada, incluindo a do “simples” pensamento, a mudança do mundo será ainda mais rápida e (re)orientada, de modo a dar mais sentido à transformação.

Segundo Jan Val Ellam[4] “Se o conhecimento se der livremente, a perceção voará alto, tão alto quanto permitam as asas da sensibilidade espiritual de quem desejar realmente ultrapassar os seus preconceitos e limitações. Ultrapassar, enfim, os seus próprios limites”. É deste despertar que muito se fala e que terá consequências positivas na necessária transformação.

Diana Cooper – que previu os grandes incêndios – escreveu[5], referindo-se a Portugal: “As pessoas aqui, como em muitas partes da Europa, estão desiludidas com a corrupção moral dos seus líderes e empresas. Elas começam a questionar e esse aumento de consciência exigirá mudanças. Apesar da resistência por parte do poder instituído, haverá transformações em todas as áreas da vida. As aquisições coloniais dos séculos XV e XVI enriqueceram o país financeira e culturalmente, mas criaram muito carma, ainda por resolver. (…) Este país será muitíssimo influenciado pela energia que vem de Fátima (…). O amor, a cura, a abundância e uma grande luz varrerão o território e, em 2032, Portugal estará transformado.

O colombiano Andrés Rios[6] refere que entre “os principais centros planetários revelados neste ciclo da humanidade” está “Lys, em Portugal”. “Lis – Fátima” surge como prolongamento de Lys e estará a cumprir a função-programa de “centro intraterrestre, que projetou a radiação em diferentes locais de Portugal”. Apresenta trabalho ao nível da “personalidade e alma coletiva da humanidade”, embora ainda com limitações devido “à comercialização e ao turismo espiritual que se tem feito nas suas diferentes áreas de influência”. Para crentes e não crentes, Fátima tem sido apelidada “O Altar do Mundo”. Este jovem diz, a dado passo: “(…) Escutai o campanário do vosso coração. Ele vos anuncia novas combinações. O coração é a ponte entre os mundos. O coração é a vossa verdadeira morada. (…) Um novo ciclo começa. A linguagem do coração é a instrução de hoje, a simplicidade no caminho, o vosso estandarte. Fogo, fogo, fogo: despertai e elevai a humanidade. (…) Tornai-vos colaboradores e construtores do bem universal. Que cada coração disposto a colaborar se torne numa pérola do Sagrado Colar. Um novo amanhecer se anuncia, é tempo de renovação”.

© Jorge Nuno (2017)
   



[1] In “Conquistadores – Como Portugal criou o primeiro império global”, da Ed. Presença, Lisboa, 2016.
[2] In “Lusíadas”, Canto VII.
[3] In “Um Pouco Mais de Azul – A Evolução Cósmica”, Ed. Gradiva, Lisboa, 1981 (?)
[4] In “Reintegração Cósmica – Uma Preparação Para o Grande Dia da Renovação”, Ed. Pergaminho, Lisboa, 1999.
[5] In 2032 – A Nova Idade de Ouro – Uma Esperança Real para os Próximos 20 Anos”, Ed. Nascente, Amadora, 2012.
[6] In O Caminho do Lírio”,  Autores Editores, 2016.

04/10/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (5) - Um País de Vanguarda (Parte II)

UM PAÍS DE VANGUARDA

(Segunda Parte)

Depois da época áurea do séc. XVI – altura em que “Portugal criou o primeiro império global”, e reforçou a presença em várias partes do globo, em grande medida sustentada na “diplomacia musculada”, suportada pelo poder bélico da artilharia marítima – mesmo após mais cinco séculos de existência, numa caminhada plena de altos e baixos, pode haver a tentação de se pensar e dizer que Portugal vive do passado, que os portugueses são saudosistas… Creio que os portugueses têm boas razões para sentir orgulho nos seus antepassados, tal como a letra do hino nacional faz apelo: “Heróis do mar, nobre povo / Nação valente, imortal / (…) ó Pátria sente-se a voz / dos teus egrégios avós / que há de guiar-te à vitória (…)”. Também, de ter orgulho nos que se destacam no presente, pela positiva. Tudo isto, sem precisar de nacionalismos exacerbados. Mas os portugueses são conhecidos pela tendência generalizada para a modéstia, a simplicidade, o afeto, a simpatia, que tanto faz aproximar as pessoas – certamente, longe da perfeição – mas também conhecidos pela firmeza, visão, entrega e combatividade, sempre que há caminhos difíceis a percorrer e obstáculos a ultrapassar. 

O teor inicial desta crónica pode transmitir a ideia de se estar no papel de juiz em causa própria, mas as caraterísticas de Portugal e dos portugueses podem ser fonte de inspiração para outros povos. Logo após a criação de um governo minoritário construído pelo segundo partido mais votado nas últimas eleições legislativas, apoiado em partidos de esquerda com assento parlamentar – que à boa maneira portuguesa foi apelidado de “geringonça” – foram contrariadas/desafiadas as pressões externas, face à elevada dívida pública portuguesa e aos compromissos anteriormente assumidos. Decorridos menos de dois anos, terão ficado “deslumbrados” os mais céticos, face aos progressos obtidos. A tal ponto de algumas delegações estrangeiras virem a Portugal ver, “in loco”, o que fazer e como fazer, em condições semelhantes nos seus países. Ou o caso mais recente em que, na luta pela sua independência, catalães exibem cravos vermelhos, numa alusão à “revolução do cravos” de 1974, em Portugal, com alguns deles a cantar de cor “Grândola Vila Morena / terra de fraternidade / o povo é quem mais ordena /dentro de ti, ó cidade (...)”, num português perfeitamente entendível; tal, não é novidade, pois há muitas décadas que galegos entoam a canção de raiz popular portuguesa, celebrizada por Zeca Afonso: “Senhora do Almortão / ó minha linda raiana / virai costas a Castela / não queirais ser castelhana (…)”.

O “beber ideias” em Portugal acontece em várias áreas, com incidência ao nível da saúde, de que se destaca a Fundação Champalimaud / Centro Clínico Champalimaud –“Instituição médica, científica e tecnológica de última geração” –, com programas avançados nos campos da neurociência (tendo como novidade o tratamento de depressão, com máquina), e o sucesso no tratamento e investigação em doenças do foro oncológico. O neurocientista português, Rui Costa, principal investigador e diretor da Champalimaud Research foi distinguido, em junho de 2017, pela Academia Real de Artes e Ciência da Holanda, com a medalha “Ariëns Kappers”, por abrir caminhos “ao desenvolvimento de novas estratégias para tratar distúrbios como a doença de Parkinson, distúrbios de espetro autista e perturbações obsessivo-compulsivas”. São fortes razões para virem aqui (e para aqui) vários investigadores e especialistas estrangeiros.

Fruto de políticas controversas, bastaram dez anos para tornar Portugal “o país europeu com menos abortos por cada mil nascimentos”, reduzindo drasticamente o risco de vida e perseguição a que estavam sujeitas as mulheres que, pelas mais variadas razões, decidiam abortar.

Após investigadores, cientistas e empresas portuguesas darem contributos à NASA, na exploração espacial, surge agora a notícia de que investigadores do Instituto Superior Técnico, com o apoio do Instituto de Telecomunicações, venceram o concurso para colocar um satélite no espaço, através da Agência Espacial Europeia, competindo com outros projetos europeus. O satélite será 100 % português, ao nível de design, software e hardware, sendo anunciado que “destina-se a seguir aeronaves em voo”.

Um artigo escrito, em julho de 2017, em “O Jornal Económico”, por Leendert Verschoor e Meihui Chenxu, e intitulado: “Portugal: o segredo mais bem guardado da Europa”, dá pistas para empresários e investidores fixarem aqui a sua residência, e não é só pela “excelente qualidade de vida a um baixo custo” ou por ser “um país seguro, com mais de 300 horas de sol por ano e com fortes ligações ao resto ao mundo”.

Também ao nível do turismo, tem-se falado em Portugal, como um segredo bem guardado, pelo menos até agora. É que a diversidade da paisagem, o preservado património e o clima, a par do perfil dos portugueses, tudo conjuga para este país ser talhado para o turismo. Senão vejamos:
– A cidade do Porto, em 2017, recebeu pela terceira vez o prémio de “melhor destino europeu” pela “European Best Destinations;
– Lisboa, para a CNN, é a cidade mais “cool” da Europa e, da revista Wallpaper, recebeu o galardão de “melhor design de uma cidade”. No ano anterior, Lisboa já tinha sido considerada, pela Tapestry Research, “a cidade mais vibrante da Europa” e premiada, pelos World Travel Awards como “o melhor destino de cruzeiro”;
– Agora é a vez de Portugal ser premiado, também pelos World Travel Awards, como “o melhor destino turístico europeu”, o porto de Lisboa eleito “o melhor porto de cruzeiros da Europa” e o Turismo de Portugal, pela quarta vez consecutiva, eleito “o melhor organismo europeu oficial de turismo”.

Cada vez mais é frequente ouvir-se o hino nacional e o içar da bandeira portuguesa em eventos desportivos internacionais/mundiais, com atletas portugueses no pódio, englobando grupos etários cada vez mais jovens, o que é promissor. Entretanto, vamos ficando deslumbrados com a “loucura” de alguns atletas e aventureiros portugueses, muitos deles com forte ligação ao mar. É o caso de Francisco Lufinha, velejador e recordista da maior travessia sem paragens em kitesurf. Já tinha percorrido 874 km, em 48 h, entre a Madeira e o continente. Agora foi a vez de percorrer, em dez dias, cerca de 1646 km entre Ponta Delgada / Açores e Oeiras, acompanhado da sua convidada, a alemã Anke Brandt. Ambos tornaram-se recordistas da maior travessia oceânica em kitesurf.

Fernando Pessoa escreveu a seguinte quadra, no conhecido poema “O Infante”: “Quem te sagrou criou-te português / do mar e nós em ti nos deu sinal / cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez / Senhor, falta cumprir-se Portugal!”. Pois então, cumpra-se, já que há massa cinzenta e gente entusiástica e destemida q.b.

Tal como é possível ler num painel de azulejos de uma loja na zona histórica de Braga: “Não pedi para ser português, apenas tive sorte”.


© Jorge Nuno (2017)

24/09/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (4) - Um País de Vanguarda (Parte I)

UM PAÍS DE VANGUARDA
(Primeira parte)

Senti um genuíno interesse na leitura de “Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”, de Roger Crowley. Este autor, que escreveu diversas obras de história, também nesta procurou avidamente o rigor, sendo inevitável que teve, para tal, de efetuar uma vasta investigação, baseada numa imensidão de documentos da época e traduções existentes. Inicialmente, não dá mostras de pretender enaltecer as qualidades dos portugueses, enquanto povo de vocação marítima, pois retrata muitas das suas fraquezas, ocultadas nos livros convencionais da história de Portugal. No entanto, acaba por relatar “como uma das nações mais pequenas e pobres da Europa pôs em movimento as forças da globalização que hoje dão forma ao mundo” e viveu a sua época de ouro no século XVI, temida (pelo poder dos canhões da artilharia marítima), respeitada (pela ousadia e também pela oportunidade de comércio) e odiada (tanto pelos muçulmanos, face à obstinada cruzada para “o extermínio do islão e propagação da cristandade sob um monarca universal[1]”, e por todos aqueles que perdiam direitos e influência, à medida que as naus portuguesas iam avançando rumo à expansão territorial e comercial). As iniciativas do rei D. Manuel I – que viria a assumir o título de “rei de Portugal e dos Algarves, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia” – tiveram a bênção papal, com direito à “posse perpétua das terras conquistadas aos infiéis, onde outros reis cristãos não tivessem reivindicações”.

É certo que naquela época houve um enorme esforço na construção de naus, canhões de bronze e outro armamento, angariação de tripulação e preparação das viagens, mesmo fazendo uso do ouro da Guiné e dos bens de judeus expulsos. Essas viagens realizavam-se em condições difíceis: elevado risco; desconhecido; hostilidades encontradas; insuficiente provisão de água doce e falta de lugares para abastecer; falta de géneros alimentares frescos e, principalmente, de citrinos, que tanto dizimaram tripulações. Mas com as boas notícias trazidas da Índia, no regresso de Vasco da Gama (mesmo que a viagem ficasse ensombrada pela perda de dois terços da tripulação), também houve um excelente trabalho na ocultação de segredos – obtidos com muito sangue, suor e lágrimas – e na divulgação dos êxitos, que chegaram aos pontos estratégicos da Europa e, em particular, Veneza, Génova e Florença, que detinham o monopólio do comércio de especiarias (vindas por terra, até ao Egito).

No final daquele reinado, ao nível de imagem exterior, Portugal estaria no auge, muito favorecido pelo comércio florescente, que seria fruto de um “projeto, simultaneamente, imperial, religioso e económico”. Tal, foi sustentado pela influência dos padres, monges e cavaleiros da Ordem de Cristo e dos astrólogos reais, mas acima de tudo pela obstinação de um monarca que, tendo herdado a coroa do primo – D. João II – acreditava “num destino messiânico” e predestinado a estes feitos. Arrogando-se “ter herdado o manto do seu tio-avô – o Infante D. Henrique, ‘O Navegador’ –, invocou obediência à sua missão divina” para prosseguir, perante a oposição da nobreza. Agora, seria um país ainda mais forte do que o de D. João II, anterior monarca que teve o arrojo de discutir e fazer aprovar o tratado de Tordesilhas, com os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel I, “regateando a posse do mundo”, que dividido em dois seria pertença de Portugal e de Espanha, mais uma vez com a bula papal.

Entre imensos factos surpreendentes, realça-se a iniciativa e o secretismo de D. Manuel I no envio de emissários “a Henrique VII, em Inglaterra, ao rei Fernando de Aragão, em Espanha, a Júlio II [papa], a Luís XII, em França, a Maximiliano I, sacro imperador romano, convidando-os a participar numa cruzada naval pelo Mediterrâneo até à Terra Santa”, mas em que houve falta da resposta esperada. No entanto, D. Manuel I manteve firme a ideia de “destruição do bloco islâmico”, rotulado de “infiéis”. Em julho de 1505, “o papa concedeu a D. Manuel I um imposto de cruzada que poderia ser cobrado durante dois anos e remissão de todos os pecados para quem nele participasse”. Convenhamos, seria reconfortante e uma atenuante para quem participasse nestes ferozes combates, saber que todo o mal causado a outrem ficaria livre da condenação divina.

(Continua)

© Jorge Nuno (2017)




[1] Uma xilogravura de 1514 mostra-nos o rei D. Manuel I no trono, tendo à sua direita e esquerda, respetivamente, as armas do reino e a esfera armilar e, ligado ao ceptro real, uma fita com “DEO IN CELO TIBI AVTEN IN MVNDO” (A Deus no Céu e a Ti na Terra), o que faria a “ligação entre o terreno e o divino, perspetivando-o como um soberano universal a “aspirar ao título de imperador de um reino messiânico cristão”.