24/09/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (4) - Um País de Vanguarda (Parte I)

UM PAÍS DE VANGUARDA
(Primeira parte)

Senti um genuíno interesse na leitura de “Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”, de Roger Crowley. Este autor, que escreveu diversas obras de história, também nesta procurou avidamente o rigor, sendo inevitável que teve, para tal, de efetuar uma vasta investigação, baseada numa imensidão de documentos da época e traduções existentes. Inicialmente, não dá mostras de pretender enaltecer as qualidades dos portugueses, enquanto povo de vocação marítima, pois retrata muitas das suas fraquezas, ocultadas nos livros convencionais da história de Portugal. No entanto, acaba por relatar “como uma das nações mais pequenas e pobres da Europa pôs em movimento as forças da globalização que hoje dão forma ao mundo” e viveu a sua época de ouro no século XVI, temida (pelo poder dos canhões da artilharia marítima), respeitada (pela ousadia e também pela oportunidade de comércio) e odiada (tanto pelos muçulmanos, face à obstinada cruzada para “o extermínio do islão e propagação da cristandade sob um monarca universal[1]”, e por todos aqueles que perdiam direitos e influência, à medida que as naus portuguesas iam avançando rumo à expansão territorial e comercial). As iniciativas do rei D. Manuel I – que viria a assumir o título de “rei de Portugal e dos Algarves, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia” – tiveram a bênção papal, com direito à “posse perpétua das terras conquistadas aos infiéis, onde outros reis cristãos não tivessem reivindicações”.

É certo que naquela época houve um enorme esforço na construção de naus, canhões de bronze e outro armamento, angariação de tripulação e preparação das viagens, mesmo fazendo uso do ouro da Guiné e dos bens de judeus expulsos. Essas viagens realizavam-se em condições difíceis: elevado risco; desconhecido; hostilidades encontradas; insuficiente provisão de água doce e falta de lugares para abastecer; falta de géneros alimentares frescos e, principalmente, de citrinos, que tanto dizimaram tripulações. Mas com as boas notícias trazidas da Índia, no regresso de Vasco da Gama (mesmo que a viagem ficasse ensombrada pela perda de dois terços da tripulação), também houve um excelente trabalho na ocultação de segredos – obtidos com muito sangue, suor e lágrimas – e na divulgação dos êxitos, que chegaram aos pontos estratégicos da Europa e, em particular, Veneza, Génova e Florença, que detinham o monopólio do comércio de especiarias (vindas por terra, até ao Egito).

No final daquele reinado, ao nível de imagem exterior, Portugal estaria no auge, muito favorecido pelo comércio florescente, que seria fruto de um “projeto, simultaneamente, imperial, religioso e económico”. Tal, foi sustentado pela influência dos padres, monges e cavaleiros da Ordem de Cristo e dos astrólogos reais, mas acima de tudo pela obstinação de um monarca que, tendo herdado a coroa do primo – D. João II – acreditava “num destino messiânico” e predestinado a estes feitos. Arrogando-se “ter herdado o manto do seu tio-avô – o Infante D. Henrique, ‘O Navegador’ –, invocou obediência à sua missão divina” para prosseguir, perante a oposição da nobreza. Agora, seria um país ainda mais forte do que o de D. João II, anterior monarca que teve o arrojo de discutir e fazer aprovar o tratado de Tordesilhas, com os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel I, “regateando a posse do mundo”, que dividido em dois seria pertença de Portugal e de Espanha, mais uma vez com a bula papal.

Entre imensos factos surpreendentes, realça-se a iniciativa e o secretismo de D. Manuel I no envio de emissários “a Henrique VII, em Inglaterra, ao rei Fernando de Aragão, em Espanha, a Júlio II [papa], a Luís XII, em França, a Maximiliano I, sacro imperador romano, convidando-os a participar numa cruzada naval pelo Mediterrâneo até à Terra Santa”, mas em que houve falta da resposta esperada. No entanto, D. Manuel I manteve firme a ideia de “destruição do bloco islâmico”, rotulado de “infiéis”. Em julho de 1505, “o papa concedeu a D. Manuel I um imposto de cruzada que poderia ser cobrado durante dois anos e remissão de todos os pecados para quem nele participasse”. Convenhamos, seria reconfortante e uma atenuante para quem participasse nestes ferozes combates, saber que todo o mal causado a outrem ficaria livre da condenação divina.

(Continua)

© Jorge Nuno (2017)




[1] Uma xilogravura de 1514 mostra-nos o rei D. Manuel I no trono, tendo à sua direita e esquerda, respetivamente, as armas do reino e a esfera armilar e, ligado ao ceptro real, uma fita com “DEO IN CELO TIBI AVTEN IN MVNDO” (A Deus no Céu e a Ti na Terra), o que faria a “ligação entre o terreno e o divino, perspetivando-o como um soberano universal a “aspirar ao título de imperador de um reino messiânico cristão”.  

08/09/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (3) - Portugal Sempre a Surpreender

PORTUGAL SEMPRE A SURPREENDER

Portugal sempre a surpreender! Uma notícia da TVI24, do dia 6 deste mês, dava conta que Portugal surge no ranking “Expat Insider”, da Internations, como o quinto melhor país do mundo para as pessoas que saem do seu país e decidem ir viver e trabalhar para outro. Num conjunto de 65 países mundiais, é mesmo considerado o melhor de todos a nível europeu! Teve uma subida surpreendente, pois em 2016 encontrava-se em 28.º lugar, entre os mesmos 65 países. Igualmente surpreendente é o facto de, ao nível de qualidade de vida, também estar no topo do ranking e igualmente “em primeiro na forma como os expatriados se sentem bem recebidos”. Decididamente, os portugueses são um povo generoso e que irradia simpatia.

Foi evidente essa generosidade com a desgraça alheia, quando ocorreram os descontrolados incêndios deste verão no centro do país. No final de julho falava-se no apuramento de cerca de 13, 14 ou… 15 milhões de euros, quando também se dizia terem sido recolhidos 24 milhões de euros. Isto, depois de se registar de imediato uma enorme onda de solidariedade e terem sido abertas cerca de duas dezenas de contas solidárias. Em 5 de setembro, os jornais “i” e “negócios” noticiavam que os autarcas dos três concelhos mais afetados questionavam para onde terá ido esse dinheiro, deixando no ar a suspeição que terá havido desvio de verbas. Também lhes parece evidente a falta de controlo por parte de entidades oficiais [do Estado], já que não há um número definitivo e oficial. Foi mesmo defendido que o Ministério Público deveria investigar “as contas abertas para recolha de fundos para as vítimas e o destino que lhes estava a ser dado”, devendo envolver-se o Banco de Portugal, para se saber quais as entidades envolvidas, os montantes movimentados e respetivo destino do dinheiro. Alegam também que as contas abertas no estrangeiro são ainda mais difíceis de controlar, receando desvios, pelo que deve haver investigação e dadas as devidas respostas às questões levantadas. Imediatamente, o presidente da República veio a público referir que quer ver este assunto esclarecido.

Os números que circulam são os seguintes:
– a União de Misericórdias terá recolhido cerca de 1,2 milhões de euros, depois noticiado, numa peça da TVI, como sendo 1,8 milhões, com conta solidária na Caixa de Crédito Agrícola, de que terá prestado uma ajuda de 12 mil euros;
– a Cáritas de Coimbra conseguiu cerca de 900 mil euros, noticiado depois como tendo angariado também 1,8 milhões de euros, através da conta solidária no Novo Banco, e terá gasto 100 mil euros em ajuda, encontrando-se 1,3 milhões de euros cativos na Cáritas de Coimbra devido a compromissos com o REVIVA – um fundo de solidariedade para coordenar a entrega de verbas, criado pelo governo de Portugal –;
– o REVIVA terá recebido 2 milhões de euros de contas solidárias no BCP, Santander Totta, Montepio Geral e BPI, faltando regularizar 3 milhões de euros, num total de 5 milhões de euros;
– a Fundação Calouste Gulbenkian é depositária de 3,6 milhões de euros, com conta solidária na CGD, que articula a intervenção com o fundo REVITA;
– a Associação Portuguesa de Seguros angariou 2,5 milhões de euros e terá efetuado compensações de 1,5 milhões de euros.
Quanto à intervenção do Fundo REVITA, não terá sido possível quantificar a ajuda prestada até ao momento e foi anunciado que os gastos estarão sujeitos a auditorias externas.
A disparidade dos números apontados fala por si. Entretanto, no terreno, há queixas quanto à falta de celeridade e não chegada dos apoios esperados e anunciados, mesmo que por ali prestem auxílio, na reconstrução, uma imensidão de voluntários e muitos arquitetos e outros profissionais da construção civil.

Enquanto se aguarda:
– por desenvolvimentos no que toca a apuramento de responsabilidades (falhas do SIRESP, MAI, GNR, Proteção Civil, Bombeiros, eventual desvio de verbas…);
– pelos efeitos práticos dos tribunais na condenação dos mais de cem incendiários, reincidentes ou não, detidos pela PJ e, provavelmente, sujeitos apenas a prisão domiciliária, com pulseira electrónica, em tempos de época de maior risco de incêndios florestais;
– pela reconstrução das casa ardidas e redesenho do território florestal;
– pelo refazer do tecido empresarial e pela retoma da economia e empregabilidade na região…
é possível centrar a atenção noutro tipo de estoicidade e capacidade de sofrimento e de entrega dos portugueses, e por que não enaltecer os feitos gloriosos e, mais uma vez, surpreendentes, de atletas portugueses em diversas provas recentes?
– Inês Henriques, aos 37 anos, sagrou-se campeã do mundo, em Londres, e bateu recorde nos 50 km marcha, com o tempo de 4h 05m 56 s;
– Fernando Pimenta, um minhoto de Ponte de Lima, no espaço de dois dias, sagrou-se vice-campeão do mundo em canoagem K1 1000 metros e campeão do mundo em K1 5000 metros, provas que decorreram na República Checa;
– A seleção de Portugal de hóquei em patins sub-17 sagrou-se campeã europeia, em Itália, ganhando o 14.º título em 37 edições da prova e, a de sub-20, sagrou-se tricampeã do mundo, na China, liderando o ranking de vitórias em campeonatos do mundo, na categoria;
– Ricardo Pinto sagrou-se campeão do mundo em patinagem artística, na categoria de dança solo; Pedro Walgode, conseguiu a medalha de bronze na mesma categoria e a irmã, Ana Walgode, sagrou-se vice-campeã feminina, “tornando-se a primeira mulher a conseguir uma medalha num campeonato do mundo em dança solo sénior”. Este campeonato mundial decorreu na China;
– Vanessa Fernandes, medalha de prata na prova de triatlo nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, venceu a primeira edição do Ironman 70.3 Portugal, em Cascais, com o tempo de 4h 33 m 12 s. Trata-se de uma modalidade extremamente exigente, composta por natação (1900 m), ciclismo (90 km) e corrida (21,1 km). Nesta prova houve um recorde de 2200 triatletas de 66 nacionalidades, havendo 72% de estrangeiros. O próprio presidente da Federação de Triatlo revelou mostrar-se surpreendido com estes números, e a campeã portuguesa – que fez uma “longa travessia no deserto” –, emocionada à chegada, deixou transparecer ter ganho uma alma nova, entendendo o feito como “um recomeço de uma nova carreira”.

Disse Sally L. Smith, no seu livro “Vencer na Adversidade”: O pensamento positivo revigora as forças. Faz-nos concentrar no melhor que temos dentro de nós e ficar abertos a possibilidades infinitas”.

Em Ponte de Lima, na habitual animação nortenha, juntaram-se 897 tocadores de concertina, a tocar ao mesmo tempo a mesma música popular; bateram um novo recorde mundial do Guiness, que pertencia a Vila Verde (Braga). Em Castelo Branco, depois de uma corrida solidária muito participada, surge agora a Meia Maratona (21 km) designada “Corrida da Felicidade”.

Independentemente de outros terem comportamentos desviantes… há que ter presente o refrão da canção coimbrã, na voz de Luiz Goes: “É preciso acreditar! É preciso Acreditar!”. E podemos acreditar que Portugal e os portugueses continuarão a surpreender, cada vez mais, pela positiva.

© Jorge Nuno (2017)

  

07/07/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (2) - A Vã Glória de Mandar

A VÃ GLÓRIA DE MANDAR

É natural chegar-se a esta altura do ano com a sensação de necessidade de evasão, sair para qualquer lado, simplesmente sair como se isso pudesse contribuir para alguma desintoxicação mental. Admito que esse sentimento possa ser mais forte para quem trabalhou afincadamente durante um ano e espera a oportunidade de uns merecidos dias fora da rotina diária; mas também o será para quem é agora considerado “inativo”, apesar de continuar a dar contributos válidos à sociedade.

Mesmo para quem procura exercitar a paciência, há alturas em que a falta dela é gritante, o que promove essa necessidade de evasão e, pior que tudo, quando conduz à necessidade de alheamento aos reais problemas – o que é ainda mais gravoso –. E quem não se sente assim, ao observar tanta incoerência, desfaçatez, inverdade!… Na ilusão do poder, há quem pense safar-se entre os pingos da chuva sem se molhar, fazendo uso da retórica, por entender que aguenta o barco quem tiver melhor capacidade de argumentação. Sempre ouvi dizer que os bons marinheiros conhecem-se na tormenta, com o mar extremamente agitado. Agitação não falta… e, quando se está no mesmo barco, não pode ser “safe-se quem puder!”. É preciso levar o barco a bom porto. Para tal é fundamental: competência, conhecimento da realidade e entusiasmo na viagem, mesmo sabendo dos perigos e do esforço pessoal e coletivo que tal exige.

A voz presidencial tenta sossegar os ânimos, dizendo: “há que apurar os factos até às últimas consequências, doa a quem doer”. A oposição apressa-se a pedir que rolem cabeças e aponta, claramente, as de um ministro e de uma ministra. O primeiro-ministro desdramatiza com: “estão a decorrer inquéritos; até lá não há culpados”. Essa ministra, aproveita o empurrão [no bom sentido] e diz precisamente o mesmo, recusando apresentar a demissão. O outro ministro, mesmo antes do resultado dos inquéritos, diz que é o “responsável político” [pelo ocorrido], mas mantém-se em funções. Um ex-primeiro ministro afirma, acirradamente para as câmaras de TV, que o atual primeiro-ministro devia dar prioridade ao apoio às vítimas [três semanas depois de terem ocorrido] e exige que se “avance com indemnizações rápidas”, quando outras vítimas de um acontecimento semelhante [à época em que era o responsável máximo do Governo] ainda estão hoje à espera dele! Face a uma ocorrência grave para a segurança do país, um chefe de Estado-Maior exonera cinco comandantes, mesmo antes de se dar início aos habituais inquéritos, para logo numa reunião, e mais tarde na TV, deixar escapar que mantém a confiança nesses comandantes e chama a si a responsabilidade do ocorrido, descartando a responsabilidade política do ministro da tutela. Não deixa de ser curioso… mesmo sendo considerada uma “ocorrência grave”, o Sistema de Segurança Interna terá avaliado o risco e mantém que o nível de ameaça do país é “moderado”.

Hoje, quem lê Camões, surpreende-se quando ele dá voz ao Velho do Restelo, no Canto IV, de “Os Lusíadas”, colocando umas “farpas” quando tudo apontava apenas para os feitos gloriosos daquela época áurea (século XVI):
“(…)
Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que morte, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas.
(…)
Chamam-te Fama e Glória soberana
Nomes com quem se o povo néscio engana!
(…)”

Mesmo que se queira “mudar de canal”… outros, em áreas improváveis, também parecem estar contaminados. Na vertente desportiva, alguns feitos importantes em modalidades amadoras e semiprofissionais são completamente abafados pelos escândalos do desporto-rei, que fazem manchete. São excessivas as vezes que surgem as palavras: “fraude”; “e-mails”; “arbitragem”… associadas à falta de verdade desportiva, dando pistas como se podem ganhar campeonatos, ou forjando argumentos para justificar insucessos e denegrir a imagem do “inimigo”.

É fácil lançar e propagar um boato, como o caso do avião Canadair – e logo espanhol –, que teria caído no combate ao flagelo dos incêndios. Com a técnica da contrainformação (tantas vezes usada, sem olhar a meios) pretende-se neutralizar os serviços de informação do campo inimigo. Pode aparentemente “ganhar” quem for mais desonesto, mas mais perspicaz. Seguramente, fica a perder quem se envolve na disputa e quem é apanhado no fogo cruzado.

No meio de tudo isto… visualizo o doce sentir de uma caminhada, sem esforço, sem pressa, algures no Parque Nacional da Peneda-Gerês, ou sob temperaturas amenas, num dos vales próximo dos glaciares dos Alpes. Neste último, suficientemente longe, observo: as marmotas pequenas a brincar, sob o olhar atento de elementos adultos, que se revezam e se mantém de pé, cumprindo bem o papel de vigia, para segurança da colónia (mostrando que estes animais conseguem fazer melhor que alguns militares indolentes); as cabras selvagens, sem vertigens, que nos surpreendem e fazem pensar como é possível resistir naquelas condições; a vegetação luxuriante, com destaque para a flor Edelweiss, com que a natureza brinda quem a visita…

Nesta tranquilidade revigorante, como se se tratasse de um detox mental… fica-se melhor preparado para aguentar o embate e resistir a quem terá a vã glória de mandar.


© Jorge Nuno (2017)

23/06/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (1) - VIra o Vento e Muda a Sorte

VIRA O VENTO E MUDA A SORTE

De há uns tempos para cá vinha-se a sentir uma lufada de “ar fresco”, com ventos de feição [metaforicamente], apesar de [meteorologicamente] o tempo estar abafado e excessivamente quente. Vamos a factos concretos: Porto considerado, novamente, o melhor destino europeu em 2017; calor humano na visita do Papa Francisco a Fátima; no mesmo dia, a surpreendente vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão; também de forma surpreendente, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, a rotular Mário Centeno como o “Ronaldo do Ecofin”, reforçando-o mais tarde, para que não houvesse dúvidas, face aos resultados de retoma da economia portuguesa e ao “controlo” do défice; o primeiro-ministro, António Costa, a pedir e a ver autorizado a saída de Portugal do PDE – Procedimento por Défice Excessivo; idêntico pedido efetuado ao FMI e às autoridades europeias para antecipação do pagamento de 10 mil milhões de euros, ao longo de dois anos e meio, podendo levar a uma poupança de 1,3 mil milhões de euros; o anúncio que Portugal é o 3.º país mais seguro do mundo; o início do verão e começo das festas populares, um pouco por todo o lado, mas vividas de forma mais vibrante a norte…

O São João de Braga, rotulado como “a maior festa popular de Portugal”, teve início no dia 14 e termina a 25 de junho. Porque o programa é mesmo muito extenso, limito-me a resumir o folheto promocional (e a acrescentar pouco mais): 12 dias de animação; 238 horas de programação; 113 iniciativas previstas; 9 cortejos e desfiles; 12 exposições; 19 espetáculos; 10 mil pessoas envolvidas (figurantes, organização, artistas, atletas, voluntários…); 203 entidades envolvidas; 1 milhão de participantes esperados; tradições seculares únicas – carro do Rei David, carro das Ervas e carro dos Pastores; o maior cortejo folclórico nacional; a maior procissão sanjoanina de Portugal – 800 figurantes e 9 andores, com batalha de flores; o maior encontro de Gigantones e Cabeçudos da Península Ibérica; a maior concentração de Tocadores de Bombos de Portugal; um grande festival de Cavaquinhos e encontro de grupos de Concertinas; noite académica – participação dos vários grupos culturais da Universidade do Minho; o maior encontro de Joões do mundo; concursos de martelinhos ilustrados, cascatas de São João de Braga, melhores desenhos alusivos às Festas de São João e de quadras populares; jazz nos jardins; concerto pelos carrilhões de Santa Cruz, Sé e São Vicente; atuação de um número apreciável de bandas filarmónicas; cortejos das Rusgas; várias atividades desportivas; e muita, muita animação de rua.

O concerto “Um Cavaquinho e… um Bombinho”, logo na primeira noite, com a participação do artista popular Augusto Canário, que convidou uma “multidão” de amigos, deu o mote:
“Um povo que canta / é um povo feliz / solta da garganta / o que o peito diz (…)”
Na verdade, goste-se ou não do género musical, a alegria era bem patente, contagiante e vivida de forma intensa. O povo do norte é mesmo assim!

Já cantava Zeca Afonso em “Natal dos Simples”: “Vira o vento e muda a sorte (…)”
De repente, toda esta alegria e euforia parecem ter-se esfumado, virando tragédia. Soa a estranho quando, certamente com convicção e consciente da gravidade da situação, a organização das festas de São João de Braga sinta necessidade de reduzir atividades festivas e eliminar foguetes, pelo luto nacional de três dias. Soa a estranho, que uma juventude alegre e generosa, no início de um espetáculo, peça um minuto de silêncio pelas vítimas. De um momento para o outro, parece que os festejos deixam de ter significado perante tanta tragédia humana, material e do próprio ecossistema, registada em vários concelhos da região centro. O organização das festas de São João de Figueiró dos Vinhos, um dos concelhos afetados, cancelou mesmo os festejos.

A GNR diz que em 33% dos casos de incêndio em zona florestal há “mão criminosa” – situação de fogo posto (desde conflitos com vizinhos, interesses de madeireiros, fascínio doentio pelas chamas para ver bombeiros em ação, em que muitos casos se alega demência…). O presidente da autarquia de Pedrógão Grande foi contundente ao afirmar que acreditava tratar-se de “fogo posto”; o presidente da Liga de Bombeiros também. Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a principal causa dos incêndios florestais é a negligência humana; aponta que, em 80% dos casos dos incêndios em Portugal, são resultado de descuidos (queimadas descontroladas, lançamento inadvertido de pontas de cigarros, foguetes, refeições/grelhados nessas zonas… Neste caso, em poucas horas, a Polícia Judiciária apontou “causas naturais” – descargas elétricas gerada por uma tempestade. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera, confirmou a existência desse fenómeno na zona, com 277 descargas. A Autoridade Nacional de Proteção Civil alegou a conjugação de um número anormal de fatores, onde a mudança dos ventos intensos foi determinante. O presidente da República, muito presente, afirmou que “o que se fez foi o máximo que se poderia ter feito (…) não há falta de competência, nem falta de capacidade, nem falta de imediata resposta perante desafios dificílimos”. Jorge Gomes, secretário de estado da Administração Interna (que conheço pessoalmente desde 1973), mesmo habituado a estas lides, quando ocupava o cargo de governador civil de Bragança, sempre próximo da cadeia de comando da proteção civil, afirmou à comunicação social logo no início, com claro pesar e voz embargada: “Se me permitem dizer-lhe o que sinto, sinto que o fogo está a alastrar por todo o lado”; confirmou, mais tarde, que terá havido falhas no SIRESP – Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (uma parceria público-privada já com muitos anos, a envolver muitas centenas de milhões de euros…). Pretende-se, com este sistema, que haja a garantia de uma rede de comunicações única e dedicada, com qualidade de comunicações e exclusiva entre forças de segurança, emergência e proteção civil. Desde 2010 terão sido instaladas mais de quinhentas torres de comunicação, seis centrais, cinquenta e três salas de despacho, duas estações móveis com sistema via satélite, tendo sido distribuídos 23.000 terminais (telemóveis de acesso à rede). Com algumas dessas torres e antenas dos operadores convencionais destruídas pelo fogo, tal como muitas dezenas de quilómetros de rede de telefones fixos, as populações “resistentes” naquelas aldeias isoladas ficaram mais vulneráveis. Parece pouca toda a gratidão que evidenciarmos aos bombeiros anónimos, vindos de toda a parte, que lutaram e lutam, até à exaustão, no terreno. Atenua a dor, às famílias das vítimas, toda esta onda de solidariedade gigante, porque gigante é a alma do povo português. A mãe-natureza, dorida, encarrega-se de se regenerar. Assim aprendesse o ser humano, perante a adversidade. São tão evidentes as alterações climáticas e os seus efeitos devastadores, assim como são bem conhecidas as causas. Estamos na era dos elementos Fogo e Água. A subida da água do mar e alagamento do território será outra fonte de preocupação. Há caminhos apontados e ideias a interiorizar. A ação está ao nosso alcance. Basta-nos despertar, fazer algo coletivamente e recriar bons ventos. A “sorte” vem por acréscimo.


© Jorge Nuno (2017)

10/06/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (60): Crónica "Em dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas"

EM DIA DE CAMÕES, DE PORTUGAL E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Minha pátria é a língua portuguesa

Desde 1933 que em 10 de junho se celebra Luís Vaz de Camões, com a data a assinalar a sua morte, ocorrida em 1580. Este, considerado (por muitos) como o mais importante poeta português, entre poesia lírica e algumas comédias, teve notoriedade com a obra “Os Lusíadas”, que “relata factos heróicos da história de Portugal, em particular a descoberta do caminho marítimo para as Índias”, pelo capitão-mor Vasco da Gama (de 1497 a 1498). O Dia de Camões começou a ser uma realidade nacional por iniciativa do Estado Novo, com António de Oliveira Salazar a comandar os destinos da “Nação”. Ao Dia de Camões, juntou-se os condimentos “Portugal” e “Raça” (portuguesa, subentenda-se) para exultar os feitos gloriosos dos portugueses ao longo de séculos, servindo igualmente de propaganda para sustentar o regime. A partir de 1978, já depois da “Revolução dos Cravos”, passou a ter a designação atual, com um sentido diferente.

Sempre gostei mais de Fernando Pessoa do que de Camões, apesar de ambos terem o mesmo destino “patriótico” – o chão frio do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa –. A obrigatoriedade de ler Camões não era muito bem vista nos bancos das escolas. Por diversas vezes, imaginei uma outra longa e idêntica frase para comemorar o 10 de junho, começando como “Dia de Pessoa…”. E até penso que Camões, a ser coerente, aprovaria. É que ele escreveu algo que muito admiro, pois mostrou muita clarividência, para a época (com texto transcrito em ortografia atual, com vista a um mais fácil entendimento): “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”. Fundamento o que digo, do seguinte modo: tivemos Eusébio, desde os anos sessenta do século passado, como um herói nacional na qualidade de futebolista, figura que aprendemos a respeitar pela sua postura sempre correta e humilde e pelas alegrias que nos proporcionou; posteriormente, surgiu um outro futebolista – Cristiano Ronaldo – que tem incontestavelmente maior projeção internacional, é o desportista mais bem pago da atualidade e o mais conhecido a nível mundial, além de ter batido, claramente, todos os recordes anteriores (incluindo os de Eusébio) e assumir querer ficar para a história como o melhor futebolista de todos os tempos.

Mas Fernando Pessoa surpreendeu-me com uma frase, que retenho, e que me deixou algo desapontado ao ler o contexto da mesma. Sob a “mão” de Bernardo Soares, em “Livro do Desassossego” escreve, tal e qual era usual: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho porém, um sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem  pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja, independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa, vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha”. Era como se Pessoa tivesse a premonição da subjugação de Portugal a outros interesses, em vários domínios, incluindo o económico e a própria língua.

Curiosamente, no mesmo dia, reli um delicioso texto de Teolinda Gersão, como se fosse escrito pelo João Abelhudo, um suposto aluno do 8.º ano, e que intitulou: “Redacção – Uma declaração de Amor à Língua portuguesa” e, à noite, li também mais algumas páginas do livro “Conquistadores – como Portugal criou o primeiro império global”, obra fascinante de Roger Crowley. Sobre este último, é possível ficar a conhecer factos que foram ocultados ou distorcidos nas nossas aulas de história e, por exemplo, alguns trechos de diários de bordo das frotas portugueses, aquando da expansão portuguesa no séc. XV e XVI, incluindo a primeira viagem da frota comandada por Vasco da Gama, na “descoberta do caminho marítimo para as Índias”. Aí é bem visível o português tal qual era falado e escrito naquela época, de difícil entendimento hoje. Quanto ao texto de Teolinda Gersão, escrito após ajudar os netos a estudar português, é considerado um “epitáfio à língua de Camões” e que recomendo, embora não resista a deixar aqui um “cheirinho” da parte final: “E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma, não tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: “Ó João, onde está a tua gramática?”. Respondo: “Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito”.

A palavra “setôra”, para meu desagrado, faz parte do léxico nas comunidades educativas do país e ainda não foi incluída na língua portuguesa padrão e, como tal, não incluída em dicionários, mas pouco faltará. É que a língua é muito dinâmica e está em constante mutação, quer queiramos ou não. Seria interessante ver maior uniformização? Como utilizador comum, não me englobo nos chamos “puristas da língua”. Aprecio a diferenciação, a forma como as pessoas se exprimem habitual e livremente, seja no Alentejo, em Trás-os-Montes ou noutra região. A língua portuguesa – usada por mais de 300 milhões de falantes em várias partes do mundo –, tal como existe, parece “bagunça”. Mas, com maior ou menor dificuldade, é entendível neste pequeno país, nas regiões autónomas, noutros Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e, em qualquer parte do mundo, onde estejam comunidades portuguesas. Nada deve ser forçado ou imposto. Com todas as variantes, é a língua de Camões, Vasco da Gama, Pessoa, Teolinda, Eusébio, Ronaldo, a minha com que falo e escrevo, a de quem me lê, sem tradutor. Neste dia dedicado a Camões, Portugal e às Comunidades Portuguesas, brindo à língua portuguesa e ao entendimento e união que proporciona!

© Jorge Nuno (2017)



 



26/05/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (59): Crónica "Modo de Olhar"

MODOS DE OLHAR

Quando me preparava para iniciar esta crónica li a frase, citada in The Nag Hammadi Library: “Reconhece o que está à vista e aquilo que está escondido de ti tornar-se-á claro aos teus olhos”. Reconheço que o entendimento da frase não é fácil. É que a vida surpreende-nos, a cada dia, com factos inesperados, tanto pela positiva como pela negativa, sem que aparentemente possa haver qualquer controlo e previsibilidade da ocorrência para que, perante o que os nossos olhos veem, haja uma clara justificação dos factos ou do alcance dos mesmos.

Um desses factos passou-se com Nicky Hayden, americano, de 35 anos. Trata-se de uma lenda do desporto motorizado, piloto da Honda em Moto GP e campeão do mundo em 2006, nesta categoria. Foi anunciado que não resistiu aos ferimentos causados por um acidente em Rimini, em Itália. Não, não foi em corridas de moto… foi abalroado por uma viatura ligeira, quando seguia de bicicleta. Soube-se que a última dádiva do piloto terá sido a doação dos seus órgãos, desejo que terá sido cumprido pela família.

No exterior do Manchester Arena, em Inglaterra, logo após a conclusão do espetáculo da cantora americana, Ariana Grande, que contou com a presença de cerca de 21000 espetadores, um bombista suicida fez-se explodir. Com número de mortos a rondar vinte e dois e o número de feridos a ultrapassar os cem, dos quais vinte e três em estado muito grave e, como sempre nestas circunstâncias, o pânico instala-se e leva a que estes números reflitam também casos de espezinhamento, na tentativa de fuga. De imediato sobressai uma onda de solidariedade e gestos bonitos. Moradores a oferecerem camas às pessoas afetadas pelo atentado. Taxistas a oferecerem transporte gratuito a quem fugia daquele local. Uma senhora, de 48 anos, que estava próxima da estação de Victoria, a pedir aos jovens (que fugiam), para a seguir, tendo encaminhado cerca de cinquenta, que correram com ela para o Hotel Holiday Inn Express e onde deu conhecimento da notícia via Facebook, localização e número pessoal de telemóvel, para tentar sossegar os pais que não sabiam dos filhos. Dois sem-abrigo, um de 33 anos e outro de 35 anos, que se encontravam no local, em vez de fugir terão ajudado várias pessoas, incluindo crianças e viraram “heróis” improváveis; um deles, devido à visibilidade nos meios de comunicação social, terá agora oportunidade de reencontrar a sua mãe, com quem tinha perdido o contacto há anos; ao outro foi oferecido alojamento por 6 meses. Na manhã seguinte, estiveram juntos os líderes das várias comunidades locais, para mostrar união e solidariedade. José Mourinho – que já foi considerado o melhor treinador de futebol do mundo e que muitos têm vindo a dizer que já não tem a garra de outrora para estas lides, ao deixar o Manchester United em 6.º lugar na Premier League, nesta época, apesar de ter vencido a Supertaça e a Taça da Liga –, 48 horas depois do atentado em Manchester contribuiu para atenuar o sofrimento dos habitantes desta cidade ao conseguir com que o Manchester United ganhasse a final da Liga Europa, e tivesse entrada direta na Liga dos Campeões; tal, possibilitou que um simples jogo de futebol ajudasse a elevar o moral de quem se sente atacado.   

Mário Centeno, ministro das Finanças, foi por diversas alturas contestado e ainda se insiste com audição na AR – Assembleia da República, a propósito do caso dos “Offshore”. Foi igualmente contestado, de forma dissimulada, por algumas figuras de proa nas instâncias europeias, como é caso de Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão. Este último, em outubro de 2015, desagradado por não ficar a governar o partido vencedor das Legislativas, referiu que Portugal estava a ter sucesso até à chegada do novo Governo [liderado por António Costa]. O mesmo, em fevereiro de 2016, “encorajou fortemente” a equipa do ministério das Finanças de Portugal “a não fugir ao rumo bem-sucedido que vinha sendo seguido”, para em junho de 2016, deixar o cutelo no ar, como possibilidade de haver um segundo resgate, insistindo na necessidade de cumprimento das regras europeias. Agora, Centeno anuncia: a boa notícia (ainda sob a forma de previsão) de que a economia deverá crescer 3% no segundo trimestre de 2017; reforça a ideia do controlo das finanças públicas e estabilização da dívida pública; através da UTAO – Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento quer antecipar o pagamento de parte da dívida ao FMI – Fundo Monetário Internacional, entregando-lhes 7,2 mil milhões de euros em 2018 e 2019, permitindo poupanças ao Estado, em juros. Durante um ano, Centeno assume a presidência do Concelho de Governadores do BEI – Banco Europeu de Investimentos, instituição que em 2016 teve um volume de financiamento de 83,75 mil milhões de euros, dos quais 1,486 mil milhões foi direcionado para a linha de crédito da banca portuguesa, para apoiar as PME – Pequenas e Médias Empresas, para requalificação urbana e para a Indústria. Depois de Mário Centeno entregar o pedido e ver concedido a saída de Portugal do PDE – Procedimento por Défice Excessivo, não deixa de ser curioso saber que Wolfgang Schäuble ter-se-á referido a Centeno como o “Ronaldo do ECOFIN”. Paira ainda no ar a hipótese de vir a suceder ao presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, apesar de lhe ter sido pedido pelo presidente da República e primeiro-ministro para o não fazer.

Em fevereiro deste ano, no dia dos namorados, no Theatro Circo, em Braga, senti que a assistência estava rendida perante a atuação da Luísa Sobral. Eu era um deles. A meio do espetáculo apresentou uma surpresa: o Salvador. Chegado à boca de cena, com ar algo estranho, limitou-se a um tímido “olá”, provocando risos, e ainda mais quando a Luísa Sobral afirmou que tinham combinado que ele só diria aquilo. Cantou uma canção, sem letra, como quem está a trautear de improviso e saiu-se bem, embora continuando a soar a estranho para o público. Mais estranho pareceu quando venceu o Festival da Canção, que o obrigou a ir ao Festival Eurovisão da Canção e viria a ganhar com um resultado histórico – a maior pontuação alguma vez atribuída a uma canção – 758 pontos e ainda por cima cantada em português! Na noite do Festival da Eurovisão, estiveram cerca de 2,4 milhões de portugueses a ver a RTP1, tal como se fosse um dos decisivos jogos da seleção nacional de futebol. Disse que nunca tinha visto esse Festival e mostrou a sua imagem anti-vedeta. Quando foram ambos entrevistados na RTP1, a irmã disse que o “segredo foi levarmos uma coisa genuína e sem o intuito de ganhar”. Disse ainda que quando escreveu ”a canção não era para ganhar mas para a voz do meu irmão”. Por sua vez, ele afirmou que “a Luísa tem canções muito mais bonitas do que Amar pelos Dois”. Destaco, da entrevista, a frase da Luísa Sobral: “É bonito quando algo parece ser impossível para o país, e conseguimos provar o contrário!”

Na verdade… estamos sempre a ser surpreendidos. Já dizia Wayne Dyer (autor americano, com vários livros de auto-ajuda): “Mude o modo como você olha para as coisas, e as coisas que você olha mudarão”.

© Jorge Nuno (2017)

  

12/05/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (58): Crónica "No Centenário das Aparições"

NO CENTENÁRIO DAS APARIÇÕES

Há, sobejamente, produção literária que chegue sobre as aparições na Cova da Iria. Mas a tentação de escrever é enorme, até porque a temática dá visibilidade e “vende”, como se vende tudo o que se relacione com o evento, tornando-o um excelente negócio. Há os que escrevem, em vários géneros e estilos, para desmistificar e até apontar o “fenómeno” como uma fraude e outros que, de uma forma apaixonada, valorizam a fé e apontam o local como o “Altar do Mundo”.

Na atualidade, não tenho condições, nem vontade, para investigar e procurar aquilo que seria a minha “verdade” e depois escrever sobre o assunto. Não quero ser mais um a escrever e acabar por não dizer nada. Negócio com a escrita não faço, daí estar mais à vontade para o fazer, sem quaisquer contrapartidas financeiras nem outras motivações, inclusive religiosas. Há a noção que escrever uma crónica é diferir a notícia. É sob a forma de crónica que o farei, adoçando-a (ou talvez a azedando) com um pouco do meu sentir, sem o intuito de querer influenciar a crença, ou não crença, de cada pessoa que vier a ler este texto.

Lembro-me que ao longo das minhas duas décadas de vida sempre pairou no ar a ideia de fraude, vindo de várias fontes. Procurei documentar-me e ler sobre o assunto; foram várias a obras e, na primeira, calhou-me em “sorte” o livro “Fátima Desmascarada” de João Ilharco, que tem como subtítulo “A verdade histórica acerca de Fátima documentada com provas”. O livro enumera uma enormidade de contradições, induzindo o leitor a que tudo não passou de uma trapaça. Chega a ser referido que António Santos – conhecido como o “abóbora” –  pai de Lúcia, uma das três crianças que dizem ter avistado e falado com Nossa Senhora ou Senhora do Rosário, mencionou o seguinte ao filho de Artur Oliveira Santos, administrador do concelho, que em agosto de 1917 terá interrogado as crianças: “O senhor administrador não acredite na minha filha, que ela é uma intrujona”. A seguir, foi a obra de Urbano Duarte, diretor do Correio de Correia, que intitulou “Desmascarado o autor de Fátima Desmascarada”, como resultado de troca de opiniões entre ambos. Depois surgiu o livro “Fátima Nunca Mais”, do padre Mário Oliveira, como resultado do escândalo gerado pela resposta “Não”, que deu num debate, ao perguntarem-lhe: “Acredita nas aparições de Fátima?”. E mais se seguiram… até que, por uns tempos, resolvi abrandar com este tipo de pesquisas, que me faziam despender tempo e energias. Em ano de comemoração do centenário, o mercado literário reanima-se e destaco apenas duas obras saídas recentemente: “Fátima - Milagre, Ilusão ou Fraude”, de Len Port, jornalista (cético) da Irlanda do Norte, em que a editora Guerra & Paz / Clube do livro SIC, apresenta-o como “um livro intenso e polémico, destinado a informar e provocar mentes abertas e curiosas.   “A Senhora de Maio – Todas as perguntas sobre Fátima”, de António Marujo, com o prémio Jornalista Europeu de Religião do Ano (1995 e 2006), o qual foi atribuído pela Conferência de Igrejas Europeias, e de Rui Paulo da Cruz; uma das muitas perguntas formuladas nesta obra é “Fátima é fruto da imaginação de três crianças e da imposição do Clero ou revela uma forte experiência espiritual?”

Pelos meus treze anos também tive uma forte experiência, que poderia ter sido fatal, mas que se revelou “mística” e, seguramente, contribuiu para aguçar a minha curiosidade e promover o meu desenvolvimento espiritual. Como criança, não podia passar por “intrujão”, pois só depois de casado é que fiz algumas revelações do facto (e a poucas pessoas, com quem tinha intimidade). Também não estou a imaginar o meu pai a desculpar-se do filho, por ser “intrujão”, embora a época e a pressão exercida fossem diferentes.

Tenho seguido o velho ditado: “Presunção e água benta, cada qual toma a que quer”. Felizmente, tenho amigos em todos os quadrantes, alguns opostos, e tenho a tendência a respeitar as suas opiniões; e longe de mim querer mudá-las. Mas um deles, que se diz ateu, deixou escapar que lhe apareceu a avó, já falecida. Se um adulto, pessoa em que não há razões para deixar de acreditar, ainda mais por se dizer ateu, refere ter visto a avó já noutro plano, então parece fácil de aceitar que qualquer outra entidade se possa manifestar, das mais variadas formas, e por que não a mãe de Jesus de Nazaré, admitindo que a Senhora do Rosário avistada pelas crianças seria ela?

Certo é que Fátima tornou-se “obrigatório” nos circuitos turísticos na zona centro, de que beneficia a região. Certo é que multidões de peregrinos, apesar do meu tempo, acorreram ao local, a pé e por outras vias, provenientes de Portugal e outras partes do mundo. Certo é que é escandalosa a especulação do comércio, em torno de Fátima, nesta ocasião, desde preços proibitivos para uma simples dormida, até um babete de criança, com qualquer alusão ao Papa. Certo é que o Papa Francisco programou uma visita rápida a Fátima, para celebrar a comemoração do centenário das aparições e canonizar Francisco e Jacinta, o que obrigou a mais uma “revolução” na prática da Igreja Católica, tornando-as as únicas crianças, não-mártires, a ser declaradas “santas”. Certo é que, com essa visita, o governo de Portugal deu tolerância de ponto aos funcionários públicos no dia em que o Papa Francisco chegou a Portugal, o que gerou muita polémica entre deputados do maior partido que sustenta o governo, argumentando a “imaturidade do regime” e por não mostrar a laicidade, que diz ter. Certo é que o Papa Francisco, pela ousadia de querer mudar o status quo, chegando a dar pedradas no charco com expressões como “É melhor ser ateu do que um católico hipócrita” ou “Os ateus que seguem a sua consciência são bem-vindos no céu” (que o Vaticano se apressou a desmentir a ideia), ele próprio terá consciência de que o quererão matar. Certo é que, com base numa notícia do jornal “Sol”, datada de 21 de dezembro de 2016, a visita do Papa Francisco a Portugal obrigaria a um investimento de cerca de 100 milhões de euros em infraestruturas das forças de segurança do país, tendo a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, referido que essa verba seria “oriunda da venda de património que reverterá, exclusivamente, para a requalificação das infraestruturas”. Certo é que Papa Francisco dirigiu-se ao “querido povo português”, em português, num vídeo de 4 minutos, e diz vir a Portugal como peregrino ao Santuário de Fátima, “na esperança e na paz”, para rezar por todos “sem excluir ninguém” [não o fazendo, portanto, na qualidade de chefe de estado].

Bem-vindo, Papa Francisco – homem que admiro, particularmente pela sua coragem!


© Jorge Nuno (2017)